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O último voo de um grande homem

Artigo escrito por Marcelo Queiroga, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, em homenagem a Domingo Braile

No dizer de Bertolt Brecht: "Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida, e estes são imprescindíveis.”

Assim é Domingo Marcolino Braile. Um grande médico, um grande cirurgião, um visionário! Caberia perguntar : Onde estão os Brailes de hoje? Para termos a melhor referência sempre. Pois Braile sempre esteve à frente do seu tempo. Ergueu uma indústria de materiais médicos para viabilizar a cirurgia cardiovascular no Brasil. Recentemente, recebi do amigo Braile o livro A Céu Aberto com o seguinte oferecimento: “Ao insubstituível Marcelo Queiroga com toda admiração ofereço a história da minha vida. Domingo, verão de 2020”. Uma grande honra conhecer, mais de perto, a história de vida desse extraordinário brasileiro.

Conheci Domingo Braile em 1989, à época fazia residência em cardiologia no Hospital Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro, ele já era um cirurgião respeitado e, mesmo atuando no interior de São Paulo, que não tinha a mesma força de hoje, havia se estabelecido como pesquisador respeitado e conceituado cirurgião cardiovascular. Destaque-se que o Professor Braile havia introduzido no país uma técnica desenvolvida pelo francês Alain Carpentier, chamada cardiomioplastia, utilizada para enfermos com insuficiência cardíaca refratária.

Domingo Braile também foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento da cirurgia cardiovascular no Brasil ao se aventurar no ramo da indústria, precipuamente para viabilizar tecnicamente exigentes cirurgias para os brasileiros sem acesso aos procedimentos cardiovasculares complexos. Foi um pioneiro no desenvolvimento do complexo industrial da saúde. O esforço de Braile permitiu que equipamentos de circulação extracorpórea, oxigenadores e válvulas cardíacas tivessem custo-efetividade compatível com as condições orçamentárias do SUS. Com isso, milhares de vidas de brasileiros carentes foram salvas.

Na lide associativa atuou com denodo e projetou a Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (SBCCV) internacionalmente, sendo altamente reconhecida sua atuação como editor do Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery (Revista da SBCCV). Sua atuação na Sociedade Brasileira de Cardiologia foi igualmente destacada, onde pontificou como palestrante em diversas edições do Congresso Brasileiro de Cardiologia, em que sempre foi líder. Em 2018, no 73º Congresso Brasileiro de Cardiologia em Brasília, o Prof. Domingo Braile recebeu uma Homenagem Especial, em reconhecimento a sua relevante contribuição à cardiologia brasileira e o Dr. José Wanderley Neto foi seu padrinho.

Eu tive o privilégio de conviver com o Professor Braile e receber o seu sábio aconselhamento, seja na Sociedade Brasileira de Cardiologia Intervencionista ou na Sociedade Brasileira de Cardiologia. Certa vez, estava em São Paulo, na missa das 11h na Igreja São Luiz Gonzaga, quando encontrei o Professor Domingo Braile com a sua inseparável Dona Cecília. Na ocasião, Simone, minha esposa, disse-me: “Você que reclama quando o chamo para vir a missa, deveria seguir o exemplo do Professor Braile, que é um homem católico!” Contei ao amigo Braile, ele me disse: “diante do que já passei na vida tenho que ter muita fé em Deus”.

Foi um obstinado e lutou como pôde pela vida, Domingo Braile é imortal, não somente por sua obra, mas sobretudo por seu exemplo.

Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis. Assim sempre será Domingo Braile, que partiu hoje, outro domingo inesquecível para deixar sempiterno seu exemplo e espírito indômito para todos os brasileiros, nesta quadra difícil que atravessamos.

Marcelo Queiroga é presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

 

Por Da Redação em 23/03/2020 20:20