Cidades

Psicoterapeuta fala sobre a máquina humana

A verdade é que não estamos correndo contra o relógio, mas sim de nós mesmos

A gente passa a vida correndo. Estamos sempre lutando contra o relógio, tentando encaixar milhares de tarefas, uma em cima da outra, para dar tempo de tudo. E assim vamos ficando cada vez mais desesperados. Acordamos correndo, tomamos café da manhã correndo, saímos correndo e passamos o resto do dia correndo para che­gar correndo em casa e amanhã começar tudo de novo. Mas, afinal para que fazemos isso? Onde queremos che­gar? De quem estamos fugindo?

O mundo está ansioso e isto justifica toda essa corre­ria. Estamos querendo muita coisa e tudo tem que ser para ontem. Nós queremos, mesmo sem saber para que queremos. O objetivo é apenas o querer, enquanto que o ser está sendo deixado de lado. Trabalhamos tanto, cor­remos tanto para pagar as contas, conquistar e acumu­lar. Mas para que?

Enquanto isso, a família e os amigos ficam de lado, o afeto é esquecido e o abraço fica para depois. Mas, será que haverá o depois? Talvez o depois não venha e aquela vontade do abraço fique apenas na lembrança e na sau­dade de alguém que não está mais aqui. Você já parou para pensar que o seu amor pode não estar mais do seu lado amanhã? Então me responda: qual foi a sua última palavra para esta pessoa? Ansiedade é o medo que nós temos do futuro. E por qual motivo o futuro te assusta tanto? Pode ser que você esteja correndo de si mesmo. Essa correria toda que você inventa, na verdade, é ape­nas uma grande desculpa para não olhar para dentro de si mesmo. Você sabe que lá dentro tem um monte de coisa que você não tem coragem de enfrentar.

Porém, o que pouca gente sabe é que encarar a nossa própria sombra e reconhecer as nossas próprias falhas pode ser o primeiro passo para a mudança. Tudo que é desprezível em nós mesmos e nos outros, todo compor­tamento que abominamos, por mais paradoxo que seja, é a nossa salvação. Segundo Carl Gustav Jung, médico psiquiatra e criador da psicologia analítica, conhecer a própria escuridão é a melhor forma de lidar com a es­curidão do outro. “Até você se tornar consciente, o in­consciente irá dirigir sua vida e você vai chamá-lo de destino”, diz Jung.

A sombra é mais perigosa quando não é reconheci­da. Neste caso, a pessoa tende a projetar seus defeitos nos outros ou a deixar-se dominar pela sombra sem o perceber. A psicoterapia ajuda a tornar consciente os conteúdos sombrios. Quanto mais o material da sombra tornar-se consciente, menos ele pode te dominar.

Lá no fundo todos nós temos uma voz que nos di­reciona para o nosso melhor caminho. Talvez você não esteja conseguindo ouvir esta voz porque está ocupado demais tentando ser algo que não faz parte da sua essên­cia. A vida está tentando te mostrar isso, mas você pre­fere não ouvir. Preste atenção no que eu digo: o dinheiro não vai preencher esse vazio que você carrega no peito. Que bom que você chegou até aqui. Isto é sinal de que você tirou um tempo para si mesmo. Agora deixo aqui o meu convite para que você olhe para dentro e encare o que tiver que encarar. Só assim você alcançará a sua plenitude e a sua totalidade como ser humano.

Thiago Guimarães é psicoterapeuta junguiano e atende crianças, adolescentes, adultos e casais. Atua em São José do Rio Preto e São Paulo. É palestrante, ministra cursos, workshops e escreve sobre relacionamento, comporta­mento e bem-estar.

Por Thiago Guimarães em 27/12/2019 16:30