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Mulher é presa por exploração de costureiros bolivianos em Rio Preto

Três casais e três crianças, incluindo uma gestante e uma criança autista, viviam e trabalhavam em condições insalubres

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Reprodução/ Google Street View

Uma mulher de 32 anos foi presa em flagrante na noite de quarta-feira (5/11), suspeita de manter trabalhadores bolivianos em condições análogas à escravidão em uma confecção no bairro Jardim Santo Antônio, em Rio Preto.

De acordo com a Polícia Militar, o caso foi descoberto após denúncia encaminhada pelo Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), que havia acolhido parte das vítimas horas antes.

Segundo a Secretaria Municipal de Assistência Social, seis adultos e duas crianças procuraram atendimento no CRAS por volta das 11h, relatando situação de exploração laboral e moradia degradante. Tratava-se de três casais bolivianos que trabalhavam sete dias por semana, das 7h à 1h da madrugada, vivendo no mesmo imóvel onde costuravam. O local, conforme os relatos, apresentava condições de insalubridade e exaustão física.

Os núcleos familiares estavam em Rio Preto havia períodos distintos: um grupo há sete meses, outro há três meses e o terceiro há um mês. Entre os adultos havia uma gestante com gravidez de risco, e entre as três crianças, de 2, 7 e 9 anos, uma foi diagnosticada com transtorno do espectro autista (TEA).

Os trabalhadores contaram que recebiam, em média, R$ 1 mil por mês, valor variável conforme a produtividade. Quando havia queda na produção, a empregadora reduzia a quantidade de alimentos oferecidos. Em alguns dias, por exemplo, o café da manhã consistia em meio pão por pessoa. Ao questionarem a falta de comida, especialmente para as crianças, a mulher respondia que “a escola já oferece alimentação, e por isso não precisam comer em casa”.

Eles também relataram que a empregadora criava dívidas fictícias, descontadas do salário, e que a gestante era impedida de realizar consultas de pré-natal, sob a justificativa de que “as saídas atrapalhariam a produção”. Além disso, sofreriam agressões verbais e restrição de circulação, com a patroa definindo quando podiam sair à rua.

Ainda segundo a Secretaria de Assistência Social, os trabalhadores conseguiram deixar o imóvel durante a ausência da proprietária, que havia saído para uma consulta médica, e buscaram socorro junto ao CRAS.

Durante o atendimento, informaram possuir rede de apoio familiar em São Paulo (mãe e irmã). Com isso, o Centro Pop providenciou passagens rodoviárias para que retornassem à capital e deixassem a situação degradante. Foram também garantidos alimentação e pernoite na Casa de Cirineu, já que as passagens estavam agendadas para esta quinta-feira (6/11).

Entretanto, uma das crianças ainda estava na escola, e todos os pertences e documentos pessoais permaneciam na casa. Três homens do grupo retornaram ao local para buscá-los, mas acabaram impedidos de sair novamente. Um deles conseguiu fazer contato telefônico com a equipe de assistência social, que acionou a Polícia Militar e a Guarda Municipal às 17h15.

As equipes chegaram ao endereço por volta das 19h, realizaram a retirada dos trabalhadores e, com apoio da Abordagem Social, os encaminharam ao acolhimento temporário. Na sequência, todos foram conduzidos à Central de Flagrantes, onde foi lavrado o boletim de ocorrência e a prisão em flagrante da empregadora.

De acordo com o boletim, a mulher admitiu que mantinha uma confecção de costura no imóvel e alegou ter dispensado três funcionários por supostos “danos às roupas”. Já as vítimas reafirmaram à polícia que eram mal remuneradas, passavam fome e não podiam deixar o local, pois a patroa alegava que estavam devendo por conta de uma televisão e um frigobar comprados no endereço.

O caso segue sob investigação da Polícia Civil, que deve apurar a ocorrência de trabalho análogo à escravidão, cárcere privado e outras violações trabalhistas e humanitárias.

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