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Crônicas

A volta por cima

A imagem da folha virtual em branco parecia assustadora. Era a primeira vez em anos que ela encarava um novo documento de texto na tela do notebook. O vazio que ocupava praticamente todo o seu campo de visão permaneceu ali durante quase uma hora.

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Maria Amélia sempre temeu os recomeços. Principalmente porque temia, mais ainda, qualquer finalização. Não era como mover o cursor do mouse e fechar um arquivo sem salvar na esperança de logo não lembrar mais de sua existência. Tudo aquilo que deixava uma marca em sua história, permanecia como aquela velha cicatriz do joelho que, agravada por um queloide, jamais permitia que o doído tombo de infância caísse no esquecimento.
Dizem que todo período de luto tem cinco fases distintas – negação, raiva, negociação, depressão e aceitação – e, por mais masoquista que possa parecer, ela vivia intensamente cada uma dessas fases. Umas com menos, outras com bem mais intensidade, é claro.
Mas, cada uma a sua maneira, todas elas tinham passado. Era como se o longo e tenebroso inverno que existia em sua aura não tivesse mais força para competir com o caloroso agosto que apareceu naquele ano. Naquele mês de céu constantemente ensolarado, os belos ipês floridos que se antecipavam à primavera lhe davam a certeza de que, assim como o clima, ela também tinha que mudar.
Chegara a hora de encarar o passado de uma forma diferente. Ela sabia como fazer isso. Só não tinha tido coragem ainda de pôr em palavras tudo o que sentia e que havia vivido nos últimos cinco anos.

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Tinha sido uma longa jornada… Desde as primeiras fotos na concorrida tentativa de ter um “bebê Johnson” estampado na próxima campanha publicitária do xampu que não ardia nos olhos das crianças, passando pelos inúmeros concursos de Mini Princesa do Rodeio e Miss Festa do Milho, até as dezenas de testes que levaram a um esperado papel na novelinha da tarde da maior emissora de TV do País. Ainda assim, a busca da Dona Júlia parecia não ter terminado. Insistia naquilo que acreditava ser o grande sonho da filha mas que, na verdade, era apenas o dela. Ela vivia dizendo: “minha filha você tem nome de diva, da maior estrela que o cinema já teve… Eu morreria para chegar perto da grande Greta Garbo! E tenho fé em Deus que você vai chegar lá… Um dia o mundo verá que há espaço para mais uma Greta na sétima arte!”.
O problema é que para a Greta, essa busca incansável da Dna. Júlia tinha sido exaustiva demais em seus 32 anos de existência. E quanto mais o tempo passava, mais a Greta percebia que o único espaço que ela encontrava para se encaixar era na cama de vários homens. A busca dela era outra: pelo amor verdadeiro e duradouro, pela identidade que não fosse relacionada a um nome famoso, pelo talento que ia além do corpo bem torneado e do rosto de boneca. Ela queria mais. Muito mais do que a vida havia lhe dado – e lhe tirado até então. E tudo estava prestes a mudar com aquela passagem que ela tinha na mão.

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– Carlos César… 
– Tô ocupado agora, bem… É muito importante?

O Carlos César era um grande homem. Bonito, bem criado, de família tradicional, nascido no berço da sociedade rio-pretense. Era dono de uma usina de borracha, das mais lucrativas do interior paulista. Divorciado, quase cinquentão, sem filhos. Fortemente disputado pelas solteiras da região. De tempos em tempos aparecia bem acompanhado em grandes festas e fotos de colunas sociais: modelos, filhas de políticos, empresárias, herdeiras de bons sobrenomes. A troca de beldades era constante, mas já havia três anos que a figura ao seu lado se repetia em todos os eventos. Mirella era a bela da vez, a grande mulher que parecia ter conquistado – definitivamente – o coração daquele grande homem. Juntos, o usineiro e administradora de empresas formavam um dos casais mais comentados da cidade. E formavam também dois dos sócios de maior sucesso da cidade.
Era deles o Rivière Noir, restaurante que atraía gente do Estado inteiro para saborear a mais pura nata da gastronomia francesa.
Mirella administrava o lugar com maestria. Contratava profissionais com gabaritada experiência, fazia voos frequentes para a Europa em busca de receitas e ingredientes exclusivos, investia todo seu bom gosto nos detalhes da decoração e no carinho com que tratava os clientes.
Aos olhos de todos, Mirella era uma mulher 100% realizada… a Gisele Bundchen dos Alpes Canavieiros!
Aos olhos do reflexo que aparecia no espelho, ela era apenas uma mulher de mais de 40 que, de tão vazia, lutava dia após dia para se equilibrar em cima dos saltos de grife…

– Carlos César… a gente precisa conversar…

(continua)

Patricia Andrik é jornalista e autora do blog meioalicemeioamelia.com.br. Trabalha há quase dez anos na área de TV e atua também como docente de uma faculdade de comunicação da região. Casada, romântica e sonhadora, não deixa passar um acontecimento da vida sem que lhe sirva de inspiração.

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