Cultura

Coletivo celebra a poesia, a resistência e o protagonismo de mulheres negras em Sarau

Evento faz parte da programação do projeto Território Cênico e acontece hoje, a partir das 20h, no canal da Cia. Cênica no YouTube

Formado por Anna Claudia Magalhães, Mayara Ísis, Silane Santana e Yanelys Abreu, o coletivo Pretas PalaBRas abre hoje, dia 16, a partir das 20h, a programação do Projeto Território Cênico 2020. Por meio de um Sarau online, o grupo vai celebrar a poesia, a resistência e o protagonismo de mulheres negras. Para participar, basta acessar o canal da Cia. Cênica no Youtube, clicando aqui.

Para a primeira edição virtual do sarau Pretas PalaBRas, o coletivo poético convidou algumas mulheres negras para participarem do encontro. O grupo conta que o convite vem de encontro com as comemorações do Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado no próximo dia 25. "As convidadas são Ariane Santos, cantante e estudante de administração que pesquisa os recortes de raça em sua área, Pâmela Hendrix, poeta e artista visual, Pammela Galdino, assistente social e pesquisadora, e Vanessa Santos, socióloga e professora".

No momento em que a luta racial toma uma importância crucial para que toda sociedade caminhe com justiça e igualdade, "é importante que se demonstre toda a potência dessas figuras capazes de movimentar as estruturas sociais". As temáticas do encontro estão comprometidas em transmitir as histórias de lutas, as culturas e a multiplicidade das mulheres negras latinas, "que apesar de massacradas por uma realidade de violência e dominação, que marca suas vidas e a vida de seus filhos, desde seus antepassados até os dias atuais, como podemos acompanhar nos jornais, também são símbolos de resistência, de saberes e de artes, transmitidos por gerações", completa o coletivo. 

Questionadas sobre de onde vem a inspiração para as poesias, Anna Claudia conta que busca inspiração nas mulheres de sua família e na transmissão de seus exemplos e conhecimentos. "Valorizo, sobretudo, quem veio antes e foi corajosa o bastante para enfrentar as mazelas do mundo com poesia, assim como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Beatriz do Nascimento".

Mayara escreve poesias "desde que me lembro, e eu tenho excelente memória". As primeiras inspirações foram transpirações de vivências, "a manifestação do que não encontrava lugar no dia a dia". Desde muito nova, Mayara sentia um silenciamento da existência, "enquanto menina preta, gorda e pertencente de religião de matriz afro-brasileira". Na adolescência mergulhou nos livros, "mas ainda me percebia enquadrada como gente sem voz e sem letra".

A inspiração poética vem pela negação desse silenciamento, dessas ausências, "hoje aos 31 e sendo a poesia meu ofício, sinto que tudo é poesia, mas nem tudo é poema. Ajustar esse olhar me faz ser livre pra perceber a poesia do mundo e buscar os filtros necessários para a prática da minha literatura", completa Mayara.

Para Silane, a inspiração vem de muitos lugares, "mas penso muito na questão do amor, do sexo, do toque, então sempre escrevo pequenas poesias românticas. Somos luta, mas também somos amor, leveza, romance. No meio de tanto caos, precisamos nos amar, nos olhar, sentir, trocar emoções e compartilhar".

Formada em Letras, Yanelis Abreu, tem uma relação estreita com a literatura e com a poesia, particularmente. Porém, a relação quase nunca foi de escrita até vir ao Brasil e começar a ver e ser vista como uma mulher negra estrangeira, imigrante, latina, cubana. "Isso despertou vários sentimentos em mim, como raiva, orgulho, solidão, tristeza, alegria, pertencimento, que de repente precisei externar. Além disso, conheci mulheres maravilhosas e inspiradoras, incluindo claro minhas colegas do Pretas, que me mostraram a poesia por um viés de resistência e como um espaço para os excluídos alçarmos nossa voz". 

O coletivo Preatas PalaBRas ainda deixou um trechinho das poesias que vão ser apresentadas no Sarau. 

"Ser rainha não esquentar a barriga na pia do patrão 
Isso é herança da escravidão 
Honro, sim, aquelas que me criaram a beira de um tanque
E o que elas esperam é que eu me levante"


"quando Exu me convida falar
eu não dispenso sua dança
Exu faz da minha língua seu caminhar
desde os meus tempos de criança"


"Nosso luto virou luta
Viralizou na labuta
Da cor dos olhos cansados
Viu nascer a força bruta"


"[...]Yo nací en la isla que resiste
al bloqueo, al miedo, a la censura
a las carencias materiales y las dictaduras
Yo nací en la tierra de Belkis, Mariana y Sara 
de raíces fuertes y familia de matriarcas
Yo soy caribeña, latinoamericana
Yo vengo de Cuba, ¡soy una negra cubana!"

Por Da Redação em 16/07/2020 14:56