Saúde

Testosterona: porque os homens podem ter quadros mais graves de Covid-19?

Artigo escrito pelo médico urologista, Dr. Glauco Melo

Desde que a pandemia se iniciou, uma coisa é fato: os homens se dão pior ao enfrentar o Sars-Cov 2. Eles têm mais quadros severos da infecção, ocupam boa parte dos leitos de UTI e morrem muito mais.

Uma das hipóteses para explicar essa diferença está na testosterona, o hormônio que dá aos homens toda a caracterização masculina. Sabe-se que a testosterona é o hormônio responsável por transformar jovens garotos em homens através do desenvolvimento físico e psicossocial, no entanto já foram encontrados receptores em células do sistema imune, ou seja, algo acontece por lá com tal hormônio. Estudos mostram atividade anti-inflamatória mediada pela testosterona em alguns tecidos. Até aqui homens se saem melhores que as mulheres por exemplo na incidência de doenças autoimunes e outras doenças inflamatórias.

Para que o Sars-Cov 2 se ligue e entre em nossas células é necessário a ligação entre sua proteína S e receptores ECA-2. Como se fosse a chave e a fechadura. Mas apenas o encaixe não basta, precisa virar a chave para abrir a porta. Aí que entra uma pequena molécula chamada Protease e esta sim faria o movimento da chave na fechadura abrindo a porta e deixando o vírus entrar na célula. E a Protease necessita de testosterona para ser sintetizada, ou seja, mais testosterona, mais Protease. Mas com chegada do vírus há inflamação, ou seja, mais testosterona é recrutada para combater a inflamação e consequentemente mais vírus entraria nas células piorando o quadro.

Mas porque então em pacientes graves a taxa de testosterona despenca, ou quase some? Ela não estaria ajudando o vírus? Acreditávamos que houvesse supressão testicular da produção, mas há possibilidade de tal hormônio estar sendo produzido de forma habitual e sendo exaustivamente utilizado em áreas sob ataque do Coronavírus, como pulmão e rins por exemplo, corroborando o fato de que há uma comunicação constante entre sistema hormonal e sistema imunológico. A produção não consegue atender a demanda, consequentemente os níveis cairiam. Tentativas de bloquear a produção de testosterona em homens com Covid já foram testadas, mas até o momento sem eficácia comprovada e com pouca avaliação das consequências que um bloqueio hormonal faria em tais homens após a recuperação da doença.

O grande segredo neste momento, talvez seja observar homens infectados por Covid-19 mas não em estado grave, ou seja, casos leves a moderados, e utilizar como critério de risco de desenvolvimento de formas graves não apenas idade, obesidade, e outras comorbidades, mas também os níveis de testosterona após ter contraído tal doença. Aqueles com níveis de testosterona baixo apresentando maior risco de evolução para formas graves seriam melhor monitorados e acompanhados, reduzindo complicações e mortes.

Dr. Glauco Melo, médico urologista, pós-graduado no Hospital Sírio Libanês, Cirurgião Robótico, sócio da Duo Clínica e coordenador do Serviço de Urologia do Austa Hospital.

 

Por Dr. Glauco Melo em 31/07/2021 00:01