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Em 10 anos, febre maculosa matou quase 680 pessoas no Brasil

Com a atenção voltada para Covid-19, pesquisadores alertam para os ricos das zoonoses

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No período de 10 anos (entre 2010 e 2020), a febre maculosa matou 679 pessoas, o que significa uma taxa de letalidade de 35%. Outras, 1,9 mil foram infectadas pela doença. No mesmo período, 996 infecções por hantavírus foram confirmadas, com 414 mortes, o que corresponde a uma taxa de letalidade de 41%.

As informações são de um artigo recém publicado na revista The Lancet Regional Health – Americas por pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). Autora da publicação, a chefe do Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses do IOC/Fiocruz, Elba Lemos, ressalta que a conscientização é fundamental para evitar óbitos. 

“Ano passado, um paciente com hantavirose recebeu diagnóstico de Covid-19 no Rio Grande do Sul e acabou falecendo. Esse ano, em um surto de febre maculosa com cinco casos no Rio de Janeiro, dois pacientes receberam diagnóstico de Covid-19 e morreram porque o tratamento da febre maculosa não foi iniciado a tempo. Mesmo em um período de pandemia, é preciso levar em conta esses patógenos zoonóticos que circulam no Brasil, mas que são invisibilizados”, ressalta a pesquisadora.

Doenças transmitidas de animais para pessoas, a febre maculosa, a febre Q, as hantaviroses e as arenaviroses apresentam quadro clínico inicial comum a outras infecções, incluindo febre, dor de cabeça ou no corpo e mal-estar. Em meio a epidemias, quando todos os olhos estão voltados para agravos de grande circulação, como dengue ou Covid-19, essas zoonoses são frequentemente esquecidas no momento do diagnóstico dos pacientes, o que leva a atrasos na sua identificação, aumentando o risco de quadros graves e morte.

Entre as doenças destacadas no artigo, a febre maculosa e as hantaviroses são as mais frequentes. Embora não causem epidemias, esses agravos têm impacto importante na saúde pública, principalmente pelo alto índice de mortes.

“A febre maculosa pode ser curada com um antibiótico barato. Porém, se o medicamento não é administrado no início da infecção, a bactéria faz um estrago grande nos vasos sanguíneos e o dano se torna irreversível. Na hantavirose, não existe tratamento específico contra o vírus, mas o diagnóstico é importante para oferecer o suporte adequado para os pacientes. Por exemplo, a hidratação, que é muito indicada na dengue, pode ser prejudicial nesses casos, agravando a lesão pulmonar”, explica Elba.

Risco após enchentes

Considerando o risco de transmissão de zoonoses após a tragédia causada pelas chuvas em Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, a atenção deve ser redobrada. “Animais resgatados após as chuvas podem estar com carrapatos, que são transmissores da bactéria Rickettsia rickettsii, causadora da febre maculosa. É muito importante ter cuidado no momento do resgate e tratar os animais com carrapaticida”, diz a cientista, lembrando que, em 2011, quando municípios da Região Serrana foram devastados por fortes chuvas, cinco pessoas morreram de febre maculosa após lidar com cães resgatados.

Elba destaca ainda que outras zoonoses estão associadas às chuvas, especialmente a leptospirose, causada pela bactéria Leptospira, eliminada na urina de ratos, que pode infectar pessoas que entram em contato com a água das enchentes. “Dependendo do histórico relatado pelo paciente, estas doenças precisam ser consideradas no momento do diagnóstico diferencial em casos com manifestações clínicas inespecíficas, como febre”, completa Elba.

Por serem transmitidas de animais para pessoas, as zoonoses apresentam contextos de risco específicos, que propiciam a exposição humana aos microrganismos. Assim, além de conscientizar os profissionais de saúde, é essencial conhecer as áreas de circulação dos patógenos e os animais que atuam como reservatórios para facilitar o diagnóstico precoce das infecções.

No artigo, os cientistas destacam que o baixo índice de diagnósticos faz com que o impacto de algumas zoonoses seja subestimado, o que reforça a necessidade de ações de vigilância e de pesquisa. “Precisamos mapear os locais em que há presença dos agentes infecciosos zoonóticos para que o sistema de saúde esteja preparado. Por isso, a vigilância e a pesquisa são tão importantes. É um conhecimento para a ação”, salienta Elba.

Saiba mais sobre estas infecções:

Febre maculosa

Carrapatos da espécie Amblyomma sculptum, popularmente conhecido como carrapato-estrela, são os transmissores da bactéria Rickettsia rickettsii, que provoca a febre maculosa. Esses carrapatos podem parasitar diferentes animais domésticos e silvestres, incluindo bois, cavalos, cães, aves domésticas, gambás, coelhos e capivaras. Segundo o Ministério da Saúde, há relatos de casos em todas as regiões do Brasil, mas a maior parte dos registros ocorre no Sudeste e Sul.

As primeiras manifestações clínicas da doença são febre alta, dor no corpo, dor da cabeça, falta de apetite e desânimo. Depois, aparecem pequenas manchas avermelhadas na pele. O tratamento com antibiótico cura a infecção, mas precisa ser administrado nos primeiros cinco dias após o início dos sintomas.

No artigo, os pesquisadores lembram que após três décadas sem registros no Rio de Janeiro, a febre maculosa reemergiu com alto índice de mortes devido ao atraso no diagnóstico. Entre as vítimas, cinco pessoas que morreram com a infecção em 2011 tinham recebido diagnóstico de dengue. Em 2021, dois pacientes inicialmente diagnosticados com Covid-19 morreram de febre maculosa no estado.

Hantaviroses

As hantaviroses são causadas por diversos vírus da família Hantaviridae, encontrados principalmente em roedores silvestres. Esses animais, eliminam os vírus na urina e nas fezes. As pessoas são infectadas quando inalam os patógenos que ficam suspensos no ar como aerossóis. Mais afetados pelo agravo, os trabalhadores agrícolas podem contrair a infecção em lavouras ou galpões de armazenamento de grãos, onde os roedores procuram comida.

Registrada em todas as regiões do Brasil, com notificações em 15 estados e no Distrito Federal, a infecção é favorecida pelo desequilíbrio ambiental, que possibilitam o contato do homem como os roedores reservatórios, de acordo com a chefe do Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses do IOC/Fiocruz.

“O canídeo silvestre é o predador do rato do mato, que é o reservatório dos hantavírus. Quando o ambiente é degradado pelo desmatamento, os animais mais sensíveis são eliminados e ficam aqueles que conseguem conviver com homem, como os ratos silvestres. A população desses animais aumenta e eles passam a procurar alimento no ambiente humano, aumentando a exposição das pessoas”, diz Elba.

“Não é possível eliminar as zoonoses, mas precisamos de um olhar de saúde única, considerando o ser humano, os animais e o ambiente para prevenir e controlar as doenças de forma efetiva”, acrescenta a pesquisadora.

Após as manifestações clínicas iniciais como febre, dor de cabeça, nas articulações, nas costas ou na barriga, e alterações gastrointestinais, as pessoas com hantavirose podem desenvolver uma síndrome cardiopulmonar, com falta de ar, respiração e batimentos cardíacos acelerados, tosse e queda de pressão. Como não há medicação contra os hantavírus, o tratamento é orientado caso a caso, com medidas de suporte aos pacientes.

Em 2015, pesquisadores do IOC/Fiocruz confirmaram, pela primeira vez, um caso de hantavirose no Rio de Janeiro. Um morador da cidade de Rio Claro, no Sul Fluminense, faleceu devido à infecção, após ter recebido o diagnóstico inicial de dengue. Além de encontrar roedores infectados, os pesquisadores verificaram que colegas de trabalho e vizinhos do paciente apresentavam anticorpos para a doença, o que indica contato anterior com o patógeno, demonstrando a subnotificação do agravo. Segundo os cientistas, é possível que os casos tenham sido assintomáticos ou diagnosticados como dengue devido à semelhança dos sintomas das doenças.

Arenaviroses

Causador da febre hemorrágica brasileira, o vírus Sabiá reemergiu em 2020 após cerca de 20 anos sem registros, causando infecção em um homem, que morreu devido à doença. O caso foi registrado em São Paulo, o mesmo estado onde o vírus foi identificado pela primeira vez, em 1994. A doença teria sido contraída durante uma viagem à cidade de Eldorado, no Sul do estado.

O patógeno pertence à família dos arenavírus, microrganismos encontrados em roedores que podem causar alterações neurológicas e febre hemorrágica em pessoas. Além do Sabiá, quatro arenavírus são conhecidos por provocar infecção humana na América do Sul. No Brasil, pesquisadores do Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses do IOC/Fiocruz identificaram, em 2020, quatro novos arenavírus em roedores, incluindo duas novas espécies, reconhecidas pelo Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV, na sigla em inglês), com potencial para infectar pessoas.

Assim como os hantavírus, os arenavírus são transmitidos através de aerossóis eliminados a partir da urina e das fezes de roedores. Por apresentar um quadro semelhante à dengue hemorrágica e à febre amarela, pesquisadores acreditam que as arenaviroses podem ser subnotificadas.

“Embora casos de febre hemorrágica causada por arenavirus venham sendo relatados na Bolívia, pelos vírus Chapare e Machupo, e na Venezuela, pelo vírus Guanarito, no Brasil, além do silêncio quanto à ocorrência do vírus Sabiá, nunca tivemos notificação nos estados que fazem fronteira com esses países. Isso levanta a suspeita de que a doença pode não estar sendo diagnosticada”, aponta Elba.

Febre Q

A falta de dados torna difícil dimensionar o impacto da febre Q, causada pela bactéria Coxiella burnetti. A doença é transmitida principalmente em áreas rurais, pela inalação ou pelo contato direto com secreções de animais infectados, incluindo leite, fezes, urina, muco vaginal ou sêmen de gado, ovelhas, cabras, cães, gatos e outros mamíferos domésticos. Na maioria das vezes, a infecção é assintomática ou tem sintomas semelhantes aos da gripe. Porém, alguns pacientes podem desenvolver quadros graves, com pneumonia ou endocardite. O tratamento da infecção deve ser feito com antibióticos.

Apesar de indícios sobre a circulação da bactéria no Brasil desde os anos 1950, somente nas últimas décadas houve confirmação de casos, com registros no Sudeste. No Rio de Janeiro, pesquisadores do Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses do IOC confirmaram, com base no diagnóstico molecular, o primeiro paciente em 2011, na Região Metropolitana, e identificaram um surto em 2016, com cinco infectados no Sul Fluminense.

Segundo Elba, evidências da infecção em animais e relatos de casos na América do Sul acendem o alerta para a possibilidade de subnotificação do agravo. “Em estudos, já encontramos anticorpos em animais, identificamos a bactéria em bovinos, roedores e morcegos e até em amostras de queijo minas não pasteurizado. Na Guiana Francesa, país vizinho ao Brasil, há diversos relatos de pneumonia por febre Q. Esse é mais um agravo que está nas sombras e precisa ser investigado, porque embora não tenha o alto número de casos das epidemias, pode evoluir para o óbito se não tiver o tratamento específico adequado”, afirma a pesquisadora.

Bartoneloses

A doença da arranhadura do gato é a forma mais conhecida de bartonelose, infecção causada por bactérias do gênero Bartonella. Os animais infectados pela bactéria Bartonella henselae podem transmitir o patógeno através de arranhões ou mordidas. Pulgas e carrapatos presentes nesses animais também são vetores do agente bacteriano.

Segundo os pesquisadores, a diversidade de manifestações da doença dificulta o diagnóstico. Além de casos assintomáticos, a bartonelose pode provocar desde inflamação no local da ferida, inchaço nos gânglios e febre até quadros graves que afetam os nervos e o coração. Em geral, os gatos jovens têm mais chance de transmitir a infecção, e a doença se manifesta de forma mais intensa em pessoas com imunidade reduzida, como crianças, idosos e pacientes com outras enfermidades. O tratamento é feito com antibióticos.

“No ano passado, confirmamos dois casos de endocardite [infecção do coração] por bartonelose em pacientes que já tinham problemas cardíacos. Sempre que um caso humano é detectado, é importante identificar o animal doméstico envolvido para que ele também seja tratado”, comenta a pesquisadora.

 

 

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