Saúde
Aplicativos de relacionamento e saúde mental: quando vira dependência?
Artigo escrito pelo Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel
Recentemente, foi publicada no New York Times uma análise sobre o papel dos aplicativos de relacionamento na saúde mental das pessoas. As principais pesquisas neste campo foram conduzidas pela professora Helena Fisher, uma antropóloga do Kinsey Institute (EUA).
Segundo a especialista, dois aspectos chamaram bastante atenção nas entrevistas: as pessoas estão cada vez mais cansadas do modelo convencional de relacionamento e muitas relataram uma certa dependência desses aplicativos, com impacto negativo à saúde mental.
Em relação a uma possível insatisfação com o modelo convencional de relacionamento, os entrevistados pontuam que, por meio dos aplicativos, experimentam sensações de otimismo e medo diante de tantos contatos e possibilidades de aventuras de cunho sexual. Seria uma forma de afastar o suposto tédio de um relacionamento já consolidado e enfrentar, por outro lado, muitas preocupações quanto à segurança, tendo em vista o universo desconhecido que está presente em fotos e conversas exclusivamente virtuais e intangíveis.
O risco de dependência desses aplicativos, como forma de encontrar o caminho certo para os relacionamentos, tem mudado substancialmente o comportamento das pessoas. Vale destacar que essas pessoas estão no processo de dependência por muitas décadas, quase sempre querendo buscar situações novas, mais atrativas e deixando de lado algumas percepções, como a instabilidade da saúde mental.
Comportamentos como a exaustão em atividades corriqueiras, mudanças de personalidade, mudanças de humor e sensação de arrependimento com tempo e dinheiro gastos foram observados em muitos entrevistados que há mais de 10 anos buscam conquistar um relacionamento por meio dos aplicativos.
A escritora Shani Silver, autora do livro “Revolução dos Solteiros”, também se posicionou sobre a pesquisa, demonstrando preocupação com a saúde mental e o risco de esgotamento mental (burnout) por parte das pessoas totalmente dependentes de aplicativos de relacionamento. Silver colocou a seguinte questão para debate e reflexão: será que as pessoas desapontadas por um espaço virtual que adquiriram para supostamente encontrar um relacionamento amoroso estão percebendo o impacto negativo que isso pode estar gerando à saúde mental e ao bem-estar?
A escritora acrescenta que os aplicativos de relacionamento exercem um efeito inicial positivo, melhorando o humor e os níveis de energia do corpo. No entanto, com o passar do tempo, as pessoas começam a sentir raiva e ressentimento em relação à felicidade de quem construiu seus relacionamentos de forma mais natural e gradual. Nessa etapa do processo, o abalo emocional, mental e físico começa a se tornar um sinal de alerta para possíveis doenças físicas e psíquicas.
A principal mensagem que essa importante pesquisa conduzida pela professora Helena Fisher deixa para todos nós é que a sensação de imaginar que algo muito bom irá acontecer por meio desses aplicativos pode se tornar um estado de incerteza e insegurança por muitos anos, gerando infelicidade e comprometimento significativo da autoestima.
Além disso, uma dica bem bacana foi a seguinte: se uma pessoa já encontrou possíveis nove pessoas que se alinhariam com seu perfil, tente aprofundar o relacionamento com essas até talvez encontrar sua “cara-metade”. Segundo estudos anteriores a essa pesquisa, a memória de uma pessoa não consegue lidar de forma equilibrada com mais do que cinco a nove estímulos simultâneos.
Em suma, manter a dependência de aplicativos de relacionamento pode se converter em obsessão, ansiedade, esgotamento mental e físico, gerando consequências negativas na vida pessoal e profissional.
Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel. Cardiologista com especialização em Cirurgia Cardiovascular, orientador de Nutrologia e Longevidade e coordenador da Faculdade de Medicina da Unilago.
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