Economia
Fim da escala 6×1 divide opiniões sobre impactos em Rio Preto e região
Mudança prevê dois dias de descanso e redução gradual da jornada para 40 horas semanais; trabalhadores esperam mais qualidade de vida, enquanto empresários alertam para custos
O fim da escala de trabalho 6×1 pode alterar a rotina de milhares de trabalhadores e exigir adaptações nas empresas de Rio Preto e região. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019 foi aprovada pelo Senado em dois turnos, na noite da última quarta-feira (14/10), por 75 votos a 1, e segue para promulgação. O texto prevê dois dias de descanso remunerado por semana sem corte salarial.
A mudança alcança diretamente trabalhadores contratados pela CLT que cumprem jornadas com apenas um dia de folga por semana. Entre as categorias que podem precisar de ajustes nas escalas estão vendedores, operadores de caixa, balconistas e estoquistas do comércio, profissionais das linhas de produção industrial, garçons, cozinheiros e funcionários de hotéis, além de trabalhadores da limpeza, porteiros e vigias.
A proposta divide opiniões entre trabalhadores, representantes sindicais e entidades empresariais. Enquanto os defensores destacam os benefícios para a saúde, o convívio familiar e o descanso, representantes do setor produtivo demonstram preocupação com as despesas para manter as operações, reorganizar escalas e contratar funcionários.
João Pedro Alves Filho, presidente do Sindalquim e também do MSU (Movimento Sindical Unificado), que reúne entidades representativas de trabalhadores da região, ressalta a importância de acompanhar a aplicação das novas regras.
“A redução da jornada precisa ser vista a partir da realidade de quem passa o dia na produção, muitas vezes em atividades pesadas e em turnos. O trabalhador precisa de tempo para descansar e recuperar a saúde. A aprovação é um avanço, e agora é importante acompanhar a implementação para que os direitos sejam respeitados”, diz.
Somente os setores de fabricação de álcool, produtos químicos e farmacêuticos, além da indústria alimentícia, reúnem mais de 25 mil trabalhadores na região, segundo dados sindicais.
Comércio alerta para custos
No setor empresarial, a preocupação está nos efeitos financeiros da mudança e na possibilidade de repasse de despesas aos consumidores. Jean Daher, presidente da Acirp (Associação Comercial e Empresarial de Rio Preto), defende a participação das micro e pequenas empresas nas discussões sobre a adaptação à nova jornada.
“Discutir mudanças na jornada de trabalho é legítimo e necessário, mas uma decisão com esse alcance precisa ser construída com diálogo e análise cuidadosa de seus efeitos sobre as empresas, os trabalhadores e a geração de empregos. As micro e pequenas empresas, que têm menos margem para absorver novos custos e reorganizar suas operações, precisam ser ouvidas antes de qualquer mudança”, afirma.
Ricardo Ismael, presidente do Sincomércio (Sindicato dos Empregados do Comércio de Rio Preto), avalia que a medida poderá elevar as despesas das empresas, principalmente daquelas que precisarem reorganizar as escalas ou recorrer ao pagamento de horas extras para manter o funcionamento.
“Quando falamos de impacto, é um impacto econômico gigantesco para a empresa e consumidor. O que tem sido dito no início é que o trabalhador vai ter mais tempo para ficar em casa, mas, na prática, esse fim da escala vai ser muito caro. A empresa não tem como arcar com esse custo”, afirma.
Na avaliação de Ismael, parte dos gastos adicionais poderá ser repassada ao consumidor por meio dos preços de produtos e serviços. Ele também demonstra preocupação com o endividamento das famílias, sobretudo as de renda média e baixa, e defende que as dificuldades enfrentadas pelos empresários sejam consideradas no debate.
“Esse custo terá de ser diluído e acabará chegando ao consumidor. Essa conta vai aparecer no ano que vem, quando a mudança estiver em vigor, e poderá agravar o endividamento das famílias brasileiras. Não adianta o próximo governo transferir toda essa responsabilidade para o empresário, porque ele não é o vilão. As empresas já vinham fazendo esses cálculos e avaliando os impactos que teriam mais adiante. Sabemos do problema de endividamento que isso pode gerar, principalmente para as famílias de média e baixa renda”, alerta.
Trabalhadores esperam mais qualidade de vida
Entre os trabalhadores, a expectativa é de uma rotina menos desgastante e de mais tempo para compromissos pessoais. Yasmin Aparecida, de 22 anos, gerente de um posto de combustíveis, afirma que a folga semanal acaba concentrando tarefas domésticas e outras atividades que ficam pendentes durante os dias de trabalho.
“É uma jornada de trabalho muito cansativa, tendo apenas o domingo para folgar e ainda num sistema de escala. O dia de descanso se torna o único dia para fazer as atividades pessoais e domésticas que não conseguimos fazer. Acredito que a mudança será boa para ambos os lados: com o funcionário descansado, a empresa trabalha com uma pessoa mais produtiva, disposta e ganha com isso”, afirma.
Para Janaína Nascimento, de 25 anos, operadora de caixa em um supermercado e há cinco anos na escala 6×1, os efeitos da jornada vão além do cansaço físico e atingem a saúde mental. Ela conta que presenciou colegas com síndrome do pânico e crises de ansiedade e avalia que a falta de tempo para cuidar de si e realizar atividades cotidianas compromete a qualidade de vida.
“A gente não tem vida. Imagina ter apenas um dia para fazer tudo o que você precisa durante a semana para sobreviver? Coisas naturais, que todo mundo faz, acabam ficando de lado porque não dá tempo. A escala trouxe problemas psicológicos que agravaram a situação dos funcionários. Eu vi pessoas com síndrome do pânico e crises de ansiedade”, conta.
Para ela, dois dias de descanso podem representar a oportunidade de cuidar da saúde e conviver mais com as pessoas queridas.
“O benefício é ter mais tempo para estar perto das pessoas que você ama e viver melhor. É um descanso para a cabeça e para o corpo. A gente escuta que precisa pensar como empresa, mas há muitas pessoas para pensar no setor empresarial. E quem vai pensar no trabalhador? Só eu mesma para pensar em mim”, desabafa.
A proposta estabelece uma transição gradual. Dois meses após a promulgação, a jornada máxima semanal será reduzida para 42 horas. Depois de um ano e dois meses, o limite chegará a 40 horas semanais, com dois dias de descanso remunerado. Os salários não poderão ser reduzidos em razão da mudança.
Esta reportagem é exclusiva do jornal Gazeta de Rio Preto e de autoria da jornalista Karol Granchi. É proibida a reprodução, cópia, publicação, distribuição ou utilização total ou parcial deste conteúdo, por qualquer meio, sem autorização prévia e expressa da autora e do veículo. A reprodução não autorizada constitui violação aos direitos autorais, nos termos da Lei Federal nº 9.610/1998.
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