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IA chega ao agro, mas depende de dados organizados e confiança para avançar

Executivos da TOTVS ouvidos pela Gazeta de Rio Preto apontam oportunidades de automação no campo e nas empresas, mas reconhecem barreiras culturais, dúvidas sobre retorno financeiro e desafios de segurança da informação

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Divulgação/Universo TOTVS 2026
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A inteligência artificial começa a ocupar funções que vão além dos drones, sensores e máquinas autônomas no agronegócio. No campo, a tecnologia também pode conferir registros de atividades agrícolas, identificar inconsistências nos custos de produção e auxiliar decisões administrativas. Nas empresas, sistemas de conversação podem atender clientes pelo WhatsApp, enquanto ferramentas de análise de dados ajudam a automatizar tarefas e a identificar oportunidades de negócio.

O avanço, porém, esbarra em desafios que não são exclusivamente tecnológicos: a qualidade das informações disponíveis, a segurança dos dados, o custo de implantação e a dificuldade de parte dos empresários em enxergar o retorno financeiro do investimento.

Essas questões estiveram entre os temas discutidos por executivos da TOTVS em entrevistas exclusivas à Gazeta de Rio Preto, durante o Universo TOTVS 2026, realizado nos dias 13 e 14 de outubro, em São Paulo. Os representantes da empresa destacaram o potencial de crescimento do mercado de tecnologia no interior, especialmente nas regiões impulsionadas pelo agronegócio, e defenderam uma adoção de inteligência artificial associada à experiência humana.

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Para Fabrício Orrigo, diretor executivo de produtos da TOTVS responsável pelo segmento agro, um dos principais obstáculos à expansão da tecnologia está na organização das informações utilizadas pelos sistemas.

“Se você não tem essa base estruturada, aquilo não funciona. Ele vai te trazer informação errada, vai te direcionar para um outro caminho”, afirmou, ao explicar por que a inteligência artificial precisa de dados confiáveis para produzir resultados úteis.

A declaração aponta para uma questão central na adoção corporativa da IA: a capacidade de uma ferramenta depende não apenas de seu modelo tecnológico, mas também da qualidade dos dados aos quais tem acesso, das regras de utilização e dos controles de segurança estabelecidos pela organização.

Agentes de IA começam a assumir tarefas no campo

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Durante o evento, a TOTVS apresentou aplicações de agentes inteligentes voltadas à rotina de empresas, incluindo ferramentas destinadas à gestão agrícola. A proposta é utilizar sistemas capazes de executar tarefas específicas, analisar informações e sinalizar situações que exigem a intervenção de um profissional.

No agronegócio, uma das aplicações demonstradas é um agente que funciona como auditor dos apontamentos de campo. Esses registros reúnem informações sobre as atividades realizadas na produção, desde o plantio até a colheita e, em operações de bioenergia, etapas do processamento de açúcar e etanol.

O sistema compara os dados informados com referências históricas e identifica números que destoam do padrão esperado. Se encontrar uma inconsistência, pode alertar o responsável para que confira a informação e avalie a necessidade de correção.

“Ele vai acompanhar esses apontamentos e faz um papel de auditor mesmo. […] Ele consegue avaliar, por exemplo, se algum número ali está discrepante, não está fazendo sentido e trazer para a pessoa que está operando essa informação”, explicou Orrigo.

Outra aplicação apresentada pela empresa é voltada ao fechamento de custos. Como os dados necessários para essa atividade podem estar distribuídos em diferentes fontes, o agente reúne as informações e auxilia a análise, apontando possíveis ajustes para acelerar o processo.

A automação não elimina a necessidade de supervisão. A identificação de um dado fora do padrão, por exemplo, não significa necessariamente que houve um erro: a informação pode refletir uma situação real da operação. Cabe ao profissional verificar o alerta e decidir o que fazer.

Para Orrigo, a inteligência artificial pode contribuir para simplificar a utilização dos sistemas, aproximando a interação do que os produtores já fazem em ferramentas cotidianas, como o WhatsApp.

Pequenos produtores enfrentam barreiras maiores

A adoção de tecnologia no campo não ocorre de maneira uniforme. Segundo Orrigo, grandes produtores, grupos agrícolas e agroindústrias tendem a apresentar níveis de digitalização superiores aos registrados entre produtores de menor porte.

Uma das razões é a dificuldade de perceber o retorno do investimento. Quando os recursos são limitados, a compra de máquinas, a ampliação da área cultivada ou outros investimentos diretamente ligados à produção podem parecer prioridades mais imediatas do que a contratação de sistemas digitais.

“Quando tinham uma verba, um dinheiro para poder investir, a prioridade vai ser sempre: vou comprar uma máquina nova, vou comprar mais terra. Sempre uma visão mais nesse sentido. E a tecnologia acabava ficando um pouco em segundo plano”, afirmou o executivo.

O cenário também envolve diferenças geracionais e culturais. Orrigo avalia que a resistência vem diminuindo, embora ainda exista um caminho a percorrer para ampliar o uso dessas soluções entre os produtores rurais.

A simplificação das ferramentas e a demonstração de resultados concretos são, na avaliação dele, fatores que podem ajudar a aproximar a tecnologia de propriedades com diferentes níveis de estrutura e capacidade de investimento.

A expansão da agricultura digital depende ainda de condições que vão além da disposição do produtor. O Ministério da Agricultura e Pecuária inclui conectividade, agricultura de precisão, inteligência artificial, computação em nuvem e análise de dados entre os componentes estratégicos da transformação digital do setor.

Um estudo divulgado em fevereiro de 2026 pelo projeto Semear Digital, ligado à Embrapa Agricultura Digital, também apontou que confiança, transparência, segurança das informações e incentivos de mercado influenciam a disposição de produtores rurais para compartilhar dados.

Interior concentra demanda por tecnologia

O potencial de expansão da inteligência artificial também aparece nas empresas de outros setores da economia regional. Marco Aurélio Beltrame, diretor executivo da TOTVS Oeste, afirmou que o interior ganhou relevância no mercado de tecnologia, com crescimento impulsionado pela atividade econômica e pela diversificação dos negócios.

“Eu costumo, até por ser interior, dizer que o futuro mora no interior”, disse.

A operação regional da empresa atende clientes no oeste paulista, em áreas do Paraná, no Mato Grosso do Sul e em países da América Latina. Segundo Beltrame, a demanda por soluções digitais envolve agronegócio, saúde, varejo, educação, manufatura, construção, serviços financeiros, logística, distribuição e setor jurídico.

São José do Rio Preto, de acordo com o executivo, concentra atividades de serviços e manufatura, além de atender empresas de municípios vizinhos. Ele citou a vocação agropecuária de outras regiões, como Araçatuba e Presidente Prudente, para ilustrar como diferentes economias locais formam um mercado complementar.

“Cidades como São José do Rio Preto acabam sendo hubs para outras 30, 40, 50 cidades que estão no entorno”, afirmou.

Essa concentração de serviços transforma os centros regionais em pontos de acesso a soluções tecnológicas para empresas de diferentes portes. A proximidade com fornecedores e equipes de atendimento também pode ajudar negócios que precisam modernizar processos, mas não dispõem de departamentos próprios de tecnologia.

Beltrame afirmou que a TOTVS Oeste pretende levar aos clientes do interior as novidades apresentadas no Universo TOTVS 2026, por meio de eventos e ações regionais. Segundo ele, a operação possui mais de 2 mil clientes na região e mais de 11 unidades físicas espalhadas pelo interior.

A estrutura presencial, na avaliação do executivo, continua relevante mesmo com a expansão de serviços digitais.

“O interior necessita de um atendimento presencial. Um atendimento olho no olho, um atendimento de dono para dono”, disse.

Computação em nuvem e segurança de dados

A migração para a computação em nuvem é outro ponto da transformação digital das empresas. O modelo permite acessar sistemas e armazenar informações em infraestrutura remota, sem depender exclusivamente de servidores instalados nas próprias instalações do negócio.

A mudança, entretanto, pode gerar dúvidas entre empresas familiares e empresários acostumados a manter o controle físico dos equipamentos e arquivos.

Beltrame afirmou que mais de 60% da base de clientes da TOTVS Oeste já utiliza soluções em nuvem, segundo os dados apresentados por ele na entrevista. O executivo atribuiu a expansão à necessidade de conectar sistemas, ampliar a eficiência e lidar com riscos de segurança da informação.

A computação em nuvem não elimina esses riscos automaticamente. A proteção depende de fatores como controle de acesso, configuração dos sistemas, gestão de credenciais, cópias de segurança e responsabilidades contratuais entre fornecedores e clientes.

No caso da inteligência artificial, o cuidado ganha outra dimensão: além de proteger os dados armazenados, é necessário definir quais informações cada usuário ou agente pode consultar e utilizar.

Orrigo ressaltou que a governança precisa fazer parte da implantação desde o início. Isso envolve estruturar os dados, estabelecer regras de acesso e garantir que as ferramentas consultem fontes adequadas.

“Não é todo mundo que às vezes pode ter acesso a alguma determinada informação. Essa informação vai estar lá disponível, mas, de repente, você, no seu nível de usuário, não pode ter acesso àquele determinado nível”, explicou.

A preocupação é relevante para empresas que lidam com informações financeiras, comerciais, operacionais ou dados pessoais. Publicação de dados em sistemas inadequados, permissões excessivas ou informações desatualizadas podem comprometer a confiabilidade dos resultados e expor a organização a riscos.

Inteligência artificial não dispensa a inteligência humana

Alessandro Peralta, diretor comercial da região oeste da TOTVS, também apontou a resistência à mudança e a dificuldade de visualizar o retorno financeiro como entraves à adoção de novas tecnologias.

Para ele, a velocidade de disseminação da inteligência artificial no interior já se aproxima daquela observada nos grandes centros. O executivo afirmou que a procura por informações sobre as ferramentas tem crescido e que a curiosidade começa a ocupar espaço antes marcado pela resistência.

Peralta destacou que a IA não se limita a equipamentos físicos usados no agronegócio. Sistemas conversacionais, por exemplo, permitem que consumidores interajam com empresas por aplicativos de mensagens, enquanto a tecnologia auxilia o atendimento nos bastidores.

Na avaliação dele, o melhor resultado surge da combinação entre automação e capacidade humana de análise.

“A IA, quando a gente segue com essa vertente de colocar ela a nosso favor, ela é muito produtiva”, afirmou.

O executivo considera que atividades repetitivas e operacionais podem ser automatizadas, liberando profissionais para funções ligadas à gestão, ao planejamento e à estratégia.

“Eu acho que o ponto principal da IA é você conseguir substituir atividades que às vezes são repetitivas, são extremamente operacionais”, disse.

A adoção, contudo, exige que as empresas identifiquem problemas concretos antes de contratar ferramentas. Peralta argumentou que a demonstração de resultados por outros empresários ajuda a superar a dificuldade de investir em uma solução cujo benefício não é imediatamente visível.

“Essa barreira acaba sendo quebrada quando ele ouve de outro empresário o benefício que ele colheu por ter investido em tecnologia”, afirmou.

O desafio para empresas do interior, portanto, não se resume a acompanhar os lançamentos do mercado. Envolve avaliar quais processos precisam ser aprimorados, preparar os dados, dimensionar os custos e estabelecer critérios para medir os resultados.

No agronegócio e nos demais setores, a inteligência artificial pode acelerar tarefas e ampliar a capacidade de análise. Mas, como apontam os próprios executivos, a tecnologia depende de informações confiáveis, infraestrutura adequada e profissionais capazes de interpretar os resultados e assumir as decisões.

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