Saúde
Transplante, uma corrida pela vida
Do momento em que o órgão deixa o corpo do doador até ser implantado no receptor inicia-se uma luta contra o tempo, onde existe a mobilização de dezenas de profissionais. Lágrimas de despedida se transformam em lágrimas de solidariedade
Sim! A família decide doar os órgãos. A maioria seguindo a vontade do próprio doador que, mesmo morto, faz ‘ascender’uma luz no fim do túnel de quem espera na longa fila por um transplante. Seja de coração, córneas, pulmão ou rim. Uma autorização que transcende qualquer gesto de solidariedade e dá início a uma corrida contra o tempo. Lágrimas de despedida se transformam em lágrimas de esperança. Em Rio Preto, o Hospital de Base realizou no ano passado 204 transplantes de órgãos, uma média de 17 procedimentos por mês. Em muitos casos podendo mobilizar uma multidão de profissionais. Muitos nem sequer verão os rostos dos doadores, mas desempenham seu papel com ética e agilidade. Familiares, que mesmo diante da dor, que é a perda de um ente querido, deixam a compaixão falar mais alto. A logística minuciosa, muitas vezes, conta com apoio de viaturas e helicópteros da Polícia Militar e até aviões da Força Aérea Brasileira (FAB). Todos com o mesmo e único objetivo: salvar vidas.
A estudante Mayara Santos Campos, de 18 anos, morreu no dia 23 de maio, um dia depois deser atropelada por um ônibus na área central de Rio Preto. Após ser confirmada a morte cerebral da jovem, médicos comunicaram a família sobre o quadro irreversível da adolescente e informaram sobre a possibilidade da doação de órgãos, sugestão que foi acatada pelos entes da estudante. Mayara beneficiou pelo menos outras cinco pessoas que estavam na fila de espera em pontos diferentes do estado de São Paulo. Foram captados coração, pulmão, fígado, rins e córneas.
O nefrologista João Fernando Picollo explica como os familiares são procurados orientados sobre como funciona a doações de órgãos. “É um momento crucial, temos que entender que não é só um ciclo vital que fechou. Cada família vai encarar de uma forma devido aos aspectos religiosos e culturais. Não é um trabalho de convencimento porque ninguém é obrigado a doar. Então, esclarecemos sobre esta possibilidade que mesmo após a morte o ente que se foi poderá ajudar outras pessoas. Também falamos que no futuro eles mesmos precisem de um órgão e dependerão de uma boa ação como estão decidindo naquele momento”.
O número de recusa, famílias que não autorizam o transplante de órgãos, em Rio Preto é de aproximadamente 25%, bem abaixo da média nacional que é de 45%. “As pessoas estão bastante conscientes. Conseguem ver estes benefícios e a grandeza do gesto. Nossa taxa de aceitação está entre 75 a 80%”, diz Picollo.
Logistica
Depois de a família autorizar o transplante é travada uma corrida contra o tempo. Órgãos como córneas podem ser armazenadas por até 14 dias, rins até 24 horas, mas coração e pulmões o tempo é bastante escasso, apenas quatro horas. Daí, a necessidade de uma verdadeira mobilização e um trabalho de logística onde nada pode sair errado. “No caso de córneas, rins temos uma janela de tempo considerável, mas no caso de coração e pulmão é bastante apertada.Por exemplo, nos casos em que o doador está em Rio Preto e o receptor em São Paulo é fundamental uma boa comunicação. Pois quando começarmos a extração aqui, ao mesmo tempo já inicia a cirurgia na pessoa que irá receber o órgão. A partir daí, nada mais pode dar errado. Pois quando o coração ou pulmão chegar lá já deve ser implantado imediatamente”, explica Picollo.
Nestes casos, a mobilização conta com apoio do Estado, por meio da Polícia Militar, fornecendo viaturas e helicópteros ou até mesmo das Forças Armadas, por meio da Força Aérea Brasileira. Em fevereiro deste ano, um avião da FAB decolou do aeroporto de Guarulhos e veio até Rio Preto para transportar um órgão até a região de São José dos Campos. “Além deste apoio da polícia, há casos em que ainda fretamos aviões de táxi aéreo para fazer o transporte”. Tanto que no mês de fevereiro deste ano, um mutirão envolvendo equipes médicas de várias cidades veio para Rio Preto, onde foram feitas extração de órgãos de três pessoas quase de forma simultânea. Uma jovem de 25 anos, um rapaz de 23 e um adolescente de 12 tiveram mortes cerebrais no mesmo dia. Foram extraídos 14 órgãos em menos de 24 horas. Na época dos transplantes, Edson Vieira dos Santos, de 37 anos, contou durante uma entrevista à Gazeta como foi difícil saber da morte da sua irmã, Jéssica Mota dos Santos, 25. “No dia em que ela foi internada, os médicos disseram que ela tinha menos de 1% de chance de sobrevivência. Depois de confirmada a morte cerebral, a equipe nos perguntou se gostaríamos de doar os órgãos de minha irmã. Optamos pelo sim. Foi algo que amenizou nossa dor. Vidas foram salvas graças a minha irmã. Só em saber que ainda existe um pedacinho de Jéssica vivo em alguma pessoa, conforta e ameniza nosso sofrimento”, disse emocionado.
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