Política
Dino manda PF investigar suspeita de interferência estrangeira nas eleições
Inquérito inclui anúncios pagos no exterior e suspeita de financiamento oculto
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Polícia Federal (PF) instaure um inquérito para investigar suspeitas de interferência estrangeira no processo eleitoral brasileiro, especialmente por meio de possível financiamento oculto de campanhas políticas.
A decisão foi tomada nesta terça-feira (27/10), após provocação do Partido dos Trabalhadores (PT), no âmbito de uma arguição de descumprimento de preceito fundamental (ADPF) apresentada pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Dino entendeu que as denúncias precisam ser apuradas em procedimentos específicos, sob supervisão do STF, e não dentro da ação que já trata de questões relacionadas à soberania nacional e à aplicação de decisões e leis estrangeiras no Brasil.
Segundo o ministro, as informações apresentadas reforçam alertas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que apontou, em relatório sobre os desafios de inteligência para 2026, riscos de interferência de agentes externos interessados no Brasil.
Suspeita de financiamento no exterior
Entre os pontos que serão investigados estão informações de que os empresários Tallis Gomes e Pedro Sang teriam atuado em nome da empresa Rockbridge Network para captar recursos nos Estados Unidos destinados à campanha do candidato Flávio Bolsonaro. A possível relação entre recursos, serviços ou vantagens econômicas e a campanha deverá ser apurada pela PF.
Outra frente envolve anúncios pagos publicados por perfis sediados no exterior, mas direcionados ao público brasileiro, com conteúdos relacionados à eleição presidencial. As postagens mencionavam dados favoráveis à vitória de Flávio Bolsonaro na plataforma de apostas Polymarket, bloqueada no Brasil desde 2024.
Dino citou uma representação apresentada por Renan Santos, candidato à Presidência pelo partido Missão, que reuniu exemplos dessas publicações. O documento aponta que os conteúdos eram divulgados repetidamente por perfis estrangeiros, em português e com foco no eleitorado brasileiro.
A investigação deverá identificar quem financiou e contratou os anúncios, a origem dos recursos e se pessoas ou entidades no Brasil participaram conscientemente da iniciativa.
Meta e possíveis interferências digitais
A decisão também menciona questionamentos sobre a atuação da Meta, empresa responsável pelo Facebook, Instagram e WhatsApp. Dino citou um relatório divulgado em 22 de outubro pelo Comitê de Supervisão da companhia, que apontou falhas na proteção da integridade eleitoral.
O ministro também fez referência a preocupações apresentadas por observadores da Organização das Nações Unidas (ONU), em comunicado publicado em 21 de outubro, sobre o funcionamento de plataformas digitais durante as eleições brasileiras.
Entre os pontos citados estão interrupções temporárias na conta de campanha de um candidato, diferenças de engajamento e alcance das publicações, restrições a postagens no Instagram e disparidades na geração de imagens por inteligência artificial e na distribuição de conteúdo político.
A PF deverá apurar se houve manipulação deliberada de algoritmos por empresas de internet para beneficiar ou prejudicar candidaturas.
Suspeita envolve terras raras
Outro eixo da investigação será a denúncia de que a exploração de terras raras e outros minerais críticos brasileiros poderia ter sido oferecida como contrapartida a uma eventual interferência eleitoral.
Dino afirmou ser necessário esclarecer se existe relação entre apoio político e interesses econômicos de agentes estrangeiros nesses recursos minerais. A apuração deverá identificar quem teria feito uma eventual proposta, a quem ela teria sido dirigida, por quais meios e qual seria a contrapartida.
O ministro ressaltou que os recursos minerais pertencem à União e que sua exploração depende de autorização ou concessão concedida conforme o interesse nacional.
Linhas de investigação
A determinação prevê cinco frentes principais de apuração: as tratativas entre representantes da Rockbridge Network, Tallis Gomes e Pedro Sang; o financiamento de anúncios eleitorais por perfis estrangeiros; uma possível ligação entre financiamento político e interesses em minerais brasileiros; os contatos entre representantes da empresa e empresários do país; e eventuais manipulações algorítmicas destinadas a interferir na disputa eleitoral.
A abertura do inquérito busca esclarecer as denúncias e verificar se há elementos que comprovem irregularidades. As suspeitas citadas na decisão ainda dependem de investigação.
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