Cidades
Morre a psicanalista rio-pretense Zeca Miguel
Cerimônias de despedidas ocorreram ontem (19), em Valparaíso (GO)
Morreu no dia 17, em Brasília, Maria José Miguel, conhecida como Zeca. Psicanalista e pensadora fez carreira de sucesso na capital federal, onde angariou grande legião de amigos. Uma dessas amizades. a renomada jornalista Tereza Cruvinel, fez homenagem de despedida à Zeca, reproduzida abaixo, nesta reportagem.
O velório e a cremação de Zeca ocorreram ontem (19), no Templo do Cemitério Jardim Metropolitano, em Valparaíso (GO). Ela deixa a filha Ana.
Texto de homenagem escrito por Tereza Cruvinel
Na medida em que envelheço, cresce o número dos amigos e parentes que vi partir. Deixei de escrever no meu blog “Tema livre”, dedicado a registros pessoais e não jornalísticos, porque ele estava se tornando um livro do luto. Parei de escrever obituários afetivos, quase que supersticiosamente, como se tais registros acabassem atraindo outros. Outras mortes. Quebro este jejum não negociado comigo mesma para falar de Maria José Miguel, a Zeca. Psicanalista, pensadora, ela foi acima de tudo uma mulher de todos os amigos e amigas.
Seus parentes e dezenas de amigos despediram-se dela neste domingo, 20/04, em Valparaíso (GO), onde ela pediu para ser cremada. E tudo ali falava não da morte, mas da vida que ela viveu, atravessando outras tantas vidas com sua luz e generosidade. Ela ali, tão elegante e serena no caixão, ela tão linda com seus olhos verdes no retrato ampliado, ela na música que tanto amava, nas flores que não faltavam em suas festas. E como em sua casa, não faltaram canapés, café e sucos para os presentes. Flores e lágrimas acompanham sempre a morte, mas ali o que mais fizemos foi lembrar a vida de Zeca, pessoa luminosa que clareou o escuro da alma de tanta gente, seja como profissional ou como amiga.
A palavra, fundamental na vida pessoal e profissional dela, não faltaria em seu adeus. Além da filha Ana Miguel e do genro Max Gonçalves, falaram amigos como Elizabeth Mori, da Sociedade Psicanalítica de Brasília, o jardineiro Nélio, o artista plástico Ralph Gere, a empresária Claudia Pereira e a jornalista Liana Sabo. E a sobrinha única, Juliana Miguel Mattos, que vive em Campinas (SP). Encerramos o cortejo até o crematório soltando dezenas de balões brancos que subiram para o céu azul e limpo de Valparaíso.
Zeca era uma pessoa agregadora, que fez amigos em todos os meios – psicanalítico, político, cultural, jornalístico e tutti quanti. Todos, embora com o coração sangrando, contaram histórias e passagens vividas com ela: ou edificantes, ou comoventes, ou mesmo engraçadas.
Da minha parte, ganhei sua amizade em 1987, durante a Constituinte, lá se vão 39 anos. Depois daquelas sessões longas e cansativas, muitas vezes íamos para a casa dela (e não para os restaurantes Florentino ou o Piantela), comer, beber e relaxar. Entre os jornalistas, eu, Marilena Chiarelli, Leda Flora, Silvia Caetano e outros. Entre os políticos, por lá passavam Lula, Paulo Delgado, Olívio Dutra, Virgílio Guimarães, Sigmaringa Seixas e Bernardo Cabral, entre outros tantos.
A Constituinte acabou, mas ficou a amizade, que o tempo solidificou. Nas muitas adversidades que enfrentei na vida ela esteve comigo, iluminando as questões com sua inteligência, dando-me coragem para seguir em frente. Muitas foram também as horas felizes e prazerosas de que desfrutei ao lado dela, seja nas festas em sua casa, ou vendo juntas uma peça, um filme ou um show.
Zeca deixa legado, deixa saudade, deixa lições de vida, especialmente lição de coragem: enfrentou com um estoicismo admirável as limitações que lhe foram sendo impostas pela doença (ELA). Este vazio, que tantos hoje sentimos, vamos agora preencher com sua memória, dizendo sempre seu nome e contando sempre quem foi ela.
Força, Ana, Max e Luiza. Força para todos nós, que vimos partir com ela um pedaço de nossas vidas. A vida é um sopro.
