Política
El Niño coloca saúde do Noroeste Paulista no radar do Ministério da Saúde
Ministro Alexandre Padilha afirmou que SUS está sendo preparado para aumento de arboviroses e eventos climáticos extremos
O avanço do El Niño e a possibilidade de eventos climáticos extremos nos próximos meses colocaram a preparação do Sistema Único de Saúde (SUS) no centro das ações do Ministério da Saúde. Entre as medidas anunciadas nesta quarta-feira (16) pelo governo federal, o ministro Alexandre Padilha afirmou que o Sudeste está sendo preparado para enfrentar os impactos do fenômeno, principalmente o aumento da demanda provocado por arboviroses, ondas de calor e outros eventos extremos.
A reportagem da Gazeta de Rio Preto foi convidada pelo Ministério da Saúde para acompanhar a entrevista coletiva e participou de toda a apresentação, que durou mais de duas horas. O encontro, transmitido de forma on-line, reuniu o ministro e técnicos da pasta para detalhar os cenários previstos para diferentes regiões do país e as estratégias de preparação da rede pública de saúde.
Padilha afirmou que o Brasil registrou uma redução de 75% na incidência de dengue no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2025. O ministro, porém, alertou que a situação pode mudar nos próximos meses.
“Nós tivemos uma redução de 75% de incidência de dengue em todo o Brasil comparando com o primeiro semestre de 2025. Provavelmente, neste segundo semestre, nós teremos um aumento da incidência de dengue e outras arboviroses por conta do El Niño. Por isso que nós estamos organizando junto aos municípios e aos estados um plano de contingência mais robusto”, afirmou.
O alerta tem importância especial para o Noroeste Paulista, incluindo São José do Rio Preto e os municípios da região. O Ministério da Saúde já publicou, em julho, uma nota informativa alertando estados e municípios sobre a possibilidade de aumento de casos de dengue e chikungunya associado ao El Niño em 2026 e 2027. A pasta orientou os gestores a reforçarem as ações de vigilância e controle.
Sudeste terá ondas de calor e temporais
De acordo com o planejamento apresentado pelo governo federal, os efeitos do El Niño não serão iguais em todo o país. O plano elaborado pelo Ministério da Saúde considera características específicas de cada território.
Para o Sudeste, a previsão é de ocorrência de ondas de calor e temporais, enquanto outras regiões poderão enfrentar seca mais intensa, queimadas ou excesso de chuvas. O Painel El Niño 2026-2027, elaborado conjuntamente por órgãos como INPE, INMET e CEMADEN, aponta temperaturas acima da média e maior potencial para episódios de calor na faixa central do país.
Questionado sobre a preparação da rede paulista, Padilha afirmou que o Ministério da Saúde reforçou a estrutura do SUS no Estado.
“Reforçamos a frota e todo o Samu, além de ampliar leitos em Santas Casas de todo o estado de São Paulo. A Força Nacional do SUS também está à disposição de todos os municípios”, disse o ministro.
A preocupação vai além das doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti. O Ministério da Saúde também trabalha com a possibilidade de aumento de problemas respiratórios e cardiovasculares, desidratação e outros agravos relacionados ao calor extremo. Uma nota técnica publicada pela pasta em setembro também trata dos efeitos do El Niño sobre doenças respiratórias, incluindo influenza e Covid-19.
Região de Rio Preto enfrenta histórico de calor, seca e queimadas
O cenário ganha relevância no Noroeste Paulista porque a região convive regularmente com períodos prolongados de temperaturas elevadas, baixa umidade do ar, estiagem e ocorrência de queimadas.
As condições climáticas previstas para o segundo semestre exigem atenção principalmente à combinação entre temperaturas elevadas e períodos de menor precipitação. O Painel El Niño do governo federal aponta que temperaturas acima da média, associadas à redução das chuvas em determinadas áreas, podem elevar o potencial de ondas de calor e incêndios florestais.
Para a saúde pública, os efeitos podem aparecer tanto diretamente, por meio de problemas provocados pelo calor e pela fumaça, quanto indiretamente, com mudanças nas condições favoráveis à circulação de doenças.
A própria pasta federal já trabalha com a possibilidade de crescimento das arboviroses. Segundo o Ministério da Saúde, projeções desenvolvidas pelo InfoDengue/Fiocruz indicam a possibilidade de o Brasil registrar cerca de 1,7 milhão de casos de dengue em 2027.
Água e armazenamento exigem atenção
Outro ponto que preocupa as autoridades é a relação entre períodos de estiagem e armazenamento de água. Em regiões sujeitas à seca, a necessidade de reservar água pode criar condições favoráveis à formação de criadouros do mosquito transmissor da dengue e da chikungunya caso os recipientes não sejam protegidos adequadamente.
O Ministério da Saúde orientou estados e municípios a elaborarem planos de contingência considerando as características de cada território. O planejamento federal prevê vigilância epidemiológica, preparação dos serviços de saúde, protocolos de atendimento e mecanismos para ampliar a resposta diante de emergências.
A preparação ocorre em conjunto com órgãos responsáveis pelo monitoramento climático e de recursos hídricos. O Painel El Niño 2026-2027 reúne informações do INPE, INMET, CEMADEN, Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil Nacional.
Governo prepara resposta para emergências
Durante a coletiva, o Ministério da Saúde apresentou ainda medidas estruturais para ampliar a capacidade de resposta do SUS. Entre elas estão novas Unidades Básicas de Saúde, reforço do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), instalação de cisternas e soluções de abastecimento de água em áreas vulneráveis e ampliação da atuação da Força Nacional do SUS.
No Nordeste, uma das estratégias anunciadas é a criação de bases regionais da Força Nacional do SUS, com capacidade de deslocamento rápido de equipes e suprimentos para situações de emergência. A lógica, segundo o Ministério, é regionalizar a resposta e reduzir o tempo necessário para atendimento em locais afetados por eventos climáticos extremos.
O governo federal também apresentou o AdaptaSUS, estratégia nacional voltada à adaptação do setor de saúde às mudanças climáticas. O plano estabelece metas e ações até 2035 e prevê investimentos para adequação da infraestrutura e fortalecimento da capacidade de resposta do sistema de saúde.
El Niño deve continuar influenciando o clima
O El Niño 2026-2027 foi confirmado em junho e os modelos climáticos indicam alta probabilidade de permanência do fenômeno até o início de 2027. O governo federal trabalha com uma janela de maior atenção entre outubro deste ano e março do próximo ano.
O cenário, contudo, não significa que todas as regiões terão os mesmos efeitos. Por isso, o Ministério da Saúde afirma que os planos de contingência precisam considerar as características climáticas, ambientais, epidemiológicas e sociais de cada município.
No caso do Noroeste Paulista, a preparação envolve especialmente a capacidade de resposta da rede de saúde diante de períodos de calor intenso, baixa umidade, queimadas e possíveis alterações no comportamento das arboviroses.
A orientação do governo federal é que estados e municípios mantenham atualizados seus planos de contingência, reforcem o monitoramento e integrem as áreas de saúde, meio ambiente, recursos hídricos e Defesa Civil. A Agência Nacional de Águas também recomendou a revisão dos planos municipais e estaduais diante da intensificação do El Niño.
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