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“Ninguém põe a cara com nóis”: áudio revela bastidores de execução

Laudo divulgado pela Polícia Civil do Paraná mostra que as quatro vítimas foram mortas em uma emboscada em poucos minutos;
investigação apura possível participação de policiais civis na fuga dos suspeitos

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Reprodução/ Redes Sociais. Da esquerda para a direita; Diego, Robishley, Rafael e Alencar.

“Ô Alencar, deixa eu falar uma coisa, nossas cobranças não têm injustiça, tá? Da pessoa querer ir atrás de você e fazer isso e aquilo… Nós somos muito fortes, ninguém põe a cara com nóis (sic). Cê entendeu? (sic) Você fica protegido por nóis, tá? (sic) Você fica tranquilo porque o cara vai saber com quem ele tá lidando, porque nóis já passa a letra pro cara, tá entendendo? (sic) Você não tá lidando com cobrador ‘zezão’ não, cê entendeu? (sic) Então, isso aí cê pode ficar tranquilo (sic). Se você tiver com medo do cara fazer alguma coisa procê (sic), você tira isso da sua cabeça”.

A afirmação acima é de um áudio divulgado nesta semana pela 7ª Subdivisão da Polícia Civil de Umuarama, no Paraná. Quem conversa com Alencar Gonçalves de Souza, de Icaraíma, no Noroeste do Estado, é Diego Henrique Afonso, de 39 anos, morador de Olímpia. O diálogo ocorreu no dia 4 de agosto de 2025. Na época, o narrador estava muito seguro de que mais uma de suas cobranças pelo Brasil afora seria bem-sucedida. Infeliz engano: pouco mais de 24 horas depois, ele, dois parceiros e o ouvinte morreram alvejados em uma emboscada.

Apesar de experiente no ramo, Diego se considerava um “novato” no grupo de cobradores que atuava há 25 anos, segundo afirmou em outro áudio divulgado pela polícia.

“Faz 25 anos. Trabalho nesse ramo aí, eu sou o mais novato, mas tem os mais antigos, mas nunca aconteceu vingança em nossa cobrança, tá? (sic) Não acontece. A gente tá (sic) acostumado a fazer cobrança em Belém, Mato Grosso, e nunca acontece porque eles sabem com quem eles estão lidando. A pessoa não é boba, tá? (sic). Só se a pessoa for muito leiga, muito boba mesmo”.

O crime ocorrido em 5 de agosto de 2025 chocou o interior de São Paulo, já que Diego Henrique, Robishley Hirmani de Oliveira, 53, e Rafael Juliano Marascalchi, 43, cobradores profissionais contratados por Alencar, eram de Olímpia e São José do Rio Preto, respectivamente.

Os três tinham vasto histórico criminal. Os registros são de estelionato, tráfico de drogas e associação ao tráfico, tentativa de homicídio, violência doméstica, ameaça, lesão culposa no trânsito e fuga do local do acidente, dano e redução à condição análoga à de escravo. Após quatro meses desde o desaparecimento das vítimas e o encontro de seus corpos, em setembro, as famílias buscam respostas.  A Polícia Civil, no entanto, estava em silêncio, mas nesta semana divulgou detalhes da dinâmica dos homicídios, os laudos necroscópicos e revelou informações importantes sobre a investigação, que estavam sendo mantidas em absoluto sigilo.

Policiais afastados

A Polícia Civil do Paraná afastou cautelarmente dois agentes da corporação sob suspeita de terem facilitado a fuga dos investigados Antônio Buscariollo, de 66 anos, e o filho, Paulo Ricardo Costa Buscariollo — os principais suspeitos de serem mandantes ou até mesmo de terem participado da execução. Segundo a Secretaria de Estado da Segurança Pública do Paraná, o afastamento dos policiais civis ocorreu em sigilo ao longo das primeiras semanas da investigação, depois que irregularidades internas passaram a ser identificadas durante o trabalho de apuração. A decisão foi necessária para preservar provas e garantir que nenhuma informação sensível fosse vazada a favor dos suspeitos. Todas as diligências consideradas estratégicas passaram a ser compartimentadas, acessíveis apenas ao núcleo central da investigação.

Paulo Ricardo Costa Buscariollo e o pai Antônio Buscariollo são os principais suspeitos de serem os mandantes da chacina. (Foto: Reprodução/ Redes Sociais). 

Laudo revela dinâmica da execução

O laudo pericial entregue à Polícia Civil apontou, com base em exames balísticos, vestígios encontrados no local e na análise da caminhonete Fiat Toro usada pelas vítimas, que os quatro homens foram mortos assim que chegaram à propriedade rural que era alvo da cobrança. A perícia concluiu que a execução ocorreu por volta de 12h30, minutos após deixarem o centro de Icaraíma rumo ao distrito de Vila Rica.

As vítimas foram atingidas ainda dentro do veículo, em uma emboscada preparada em três pontos distintos da fazenda. Peritos identificaram disparos feitos com ao menos cinco armas de fogo, incluindo calibres .223, 5.56, .45, .40, 9 mm e munição de calibre 12. A Fiat Toro recebeu tiros na dianteira, na traseira e pelo lado esquerdo. Os corpos apresentavam lesões exclusivamente causadas por projéteis, sem sinais de tortura ou cativeiro.

A polícia considera que os homens morreram instantaneamente, dado o número de disparos na região da cabeça e do tórax e a grande quantidade de sangue localizada nos bancos da caminhonete. Após a execução, os próprios autores usaram a Toro para transportar os corpos até uma área de mata, onde uma cova já havia sido preparada. Partes do veículo foram encontradas junto aos corpos, indicando que o enterro foi feito às pressas. A caminhonete depois foi levada para um bunker subterrâneo e ocultada.

(Foto cedida por Obendito)

Duas semanas depois, a perícia encontrou também vestígios de sangue humano na soleira traseira de uma caminhonete SW4, apontada como o veículo usado para dar fuga à família dos suspeitos.

O que motivou a cobrança que terminou em execução

A investigação apontou que o proprietário da fazenda, identificado como Alencar, havia contratado um grupo de cobradores profissionais para retomar uma dívida antiga referente à venda da propriedade aos Buscariollo. Ele afirmava ter um saldo de R$ 129 mil a receber, enquanto os devedores circulavam com notas promissórias que somavam R$ 255 mil.

O serviço contratado por Alencar previa repassar 50% do valor recuperado aos cobradores Diego, Rafael e Robishley. As mensagens reunidas pela polícia mostram que, desde 4 de agosto, os quatro vinham pressionando os devedores e citando o temor de uma retaliação, já que os Buscariollo eram apontados como envolvidos com o crime organizado na região. Em áudios enviados à esposa, Diego relatou que um dos devedores “andava armado” e que eles voltariam no dia seguinte para cobrar novamente.

Os Buscariollo também teriam supostos envolvimentos com contrabando de cigarros.

A reconstrução minuto a minuto

4 de agosto – chegada e primeiro confronto

• As vítimas chegam a Icaraíma e seguem com Alencar até Vila Rica para tentar renegociar a dívida.

• Os devedores oferecem uma casa em troca, mas o acordo não se concretiza.

5 de agosto, 7h – novos áudios

• Diego envia mensagens à esposa relatando tensão crescente e mencionando armas com os devedores.

5 de agosto, 11h47 – deslocamento final

• Após mais uma tentativa frustrada, o grupo deixa Icaraíma rumo à propriedade rural. Essa é a última imagem registrada pelas câmeras da cidade.

5 de agosto, 12h30 – execução

• A perícia aponta que os quatro foram mortos imediatamente ao chegarem ao local. Disparos de vários calibres partiram de três posições distintas.

13h04 – ocultação

• Uma Fiat Toro é filmada em alta velocidade rumo à área onde os corpos seriam enterrados. O veículo é enterrado em um bunker e os corpos, em uma cova próxima à “mata do Tenente”.

Como os corpos foram encontrados e o que revelaram os laudos

Os corpos das vítimas foram encontrados em uma cova cavada às pressas, em uma área de mata fechada no distrito de Vila Rica, em Icaraíma. Eles estavam alinhados lado a lado, acomodados de forma improvisada, ainda com roupas e acessórios pessoais, e cobertos por terra e galhos. Fragmentos da Fiat Toro utilizada por eles, como partes internas e pedaços de revestimento, também estavam no fundo da cova, evidência de que foram retirados do veículo logo após a execução.

Os corpos estavam em estado de saponificação (um estágio avançado de decomposição em que o corpo adquire uma textura esbranquiçada e cerosa devido às condições do local), preservados o suficiente para que a perícia identificasse a trajetória dos disparos. Os laudos mostram um padrão consistente com morte instantânea, ainda dentro ou imediatamente ao lado da caminhonete, atingidos em regiões vitais.

(Reprodução/ Polícia Civil de Icaraíma)

Robishley Hirmani de Oliveira Robishley sofreu pelo menos cinco ferimentos provocados por arma de fogo. O laudo descreve:

• 1 projétil recuperado na face;

• 3 perfurações de entrada nas costas;

• 1 entrada na região da face;

• 1 entrada no braço;

• 2 orifícios de saída na região dorso-frontal.

A posição dos tiros indica que ele foi atingido tanto frontalmente quanto por trás, reforçando o cenário de ataque simultâneo de diferentes ângulos.

Diego Henrique Afonso

O laudo de Diego é o mais extenso e revela violência majoritária no tórax e na cabeça, compatível com rajadas de armas longas. Foram identificados nove disparos, sendo sete transfixantes:

• 1 tiro na cabeça;

• 6 tiros no tórax, com trajetórias cruzadas;

• 2 tiros nos membros superiores;

• 1 projétil retirado da região infraclavicular;

• 1 projétil retirado do dorso, lado direito;

• 1 fragmento alojado na região da subclávia.

Análises posteriores confirmaram que os projéteis e fragmentos extraídos de Diego eram calibre 9 mm, munição de uso comum em pistolas e submetralhadoras.

Rafael Juliano Marascalchi

Rafael sofreu seis disparos transfixantes, atingindo:

• 3 vezes a cabeça;

• 2 tiros no tórax;

• 1 tiro no membro inferior.

A concentração de disparos na cabeça reflete execução direta, sem chance de reação.

Alencar Gonçalves de Souza Giron

Alencar, pivô da disputa da dívida, morreu com um único disparo transfixante na cabeça, também típico de execução imediata.

Armas utilizadas

Diversos calibres foram identificados na cena e nos corpos: 9 mm, .45, .40, .223 e 5.56, indicando o uso de pelo menos cinco armas diferentes, incluindo fuzis.

Avanço da investigação

O inquérito foi instaurado no dia 6 de agosto, com mobilização do Grupo Tigre e forças de segurança da região. Houve buscas em propriedades dos suspeitos, apreensão de veículos, coleta de imagens de câmeras e análises balísticas que permitiram identificar o local exato da execução e os calibres usados. Os corpos foram encontrados no dia 18 de setembro, depois de varreduras com drones, georradar e equipes de busca terrestre. A apuração sobre a execução está praticamente concluída. A polícia afirma que, neste momento, a investigação segue restrita à identificação dos autores e eventuais participantes da fuga, e que essas informações só serão divulgadas após o encerramento do inquérito.

(A reprodução, cópia ou qualquer alteração no texto desta reportagem está proibida pela autora). 

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