Saúde
Uma nova guerra: humanos “normais” contra obesos
Artigo escrito pelo Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel
Lamento ter de assumir que estamos vivenciando uma nova guerra, sem data para acabar: os humanos “ normais” contra os obesos. Neste novo cenário mundial, pessoas que se consideram “normais “ ofendem, execram, debocham e negam ajuda a seres supostamente diferentes, ou seja, os obesos.
A obesidade não escolhe idade, sexo, categoria profissional ou raça. Todos nós, em alguma fase de nossas vidas, podemos desenvolver obesidade. Existem fatores genéticos, hormonais, comportamentais, sociais e ambientais que podem influenciar o ganho de peso e transformar esta pessoa, anteriormente “normal”, numa pessoa considerada diferente dos padrões definidos por esta guerra atual.
Estamos assistindo a verdadeiras cenas de terror, nas quais os humanos estão lutando contra outros humanos, ou seja, pessoas que estão se desumanizando ao ofender e execrar aqueles que necessitam prioritariamente de humanização.
Onde tudo isto vai acabar? Estamos cada vez mais sendo julgados por nós mesmos, exclusivamente segundo critérios de aparência física. A bela humanização dos atos humanos está se fragmentando em fatos tristes, como uma pessoa obesa proibida de assumir vaga em concurso, falta de estrutura hospitalar para atendimento de uma pessoa obesa ou conversas preconceituosas num reality show.
Enquanto muitos cientistas previam obter o controle da obesidade até 2025, dados recentes da UNICEF revelam que a possibilidade de estancar as altas taxas de obesidade infantil está muito remota. A obesidade infantil consiste num importante parâmetro, pois reflete a precoce desestruturação de hábitos alimentares, estilo de vida e fatores ambientais.
Talvez o tempo tenha passado muito rápido e as diferentes gerações acabaram se perdendo, ficando confusas, carentes de amparo e orientação sobre como agir diante da obesidade. Teria ficado mais cômodo separar os “normais “ dos obesos e, desta forma, deflagrar esta guerra sem princípios? Embora a obesidade tenha sido verdadeiramente classificada como um problema de saúde pública e um problema epidêmico na década de 90, muitos registros históricos mostram que estamos engordando há cerca de 300 anos.
Quero insistir na tese de que estamos engordando há 300 anos, estamos convivendo com a obesidade em caráter epidêmico há pelo menos meio século, estamos vendo um número crescente de crianças obesas e nossas ações, como seres humanos, parecem verdadeiramente involuir, a ponto de fragmentarmos nossa sociedade em humanos “normais “ e os obesos. Como muitos cientistas já definiram: os humanos “normais “ contra os obesos. Quem sabe 2023 possa ser um ano de reflexão sobre isto.
Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel. Cardiologista com especialização em Cirurgia Cardiovascular, orientador de Nutrologia e Longevidade e coordenador da Faculdade de Medicina da Unilago.
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