Política
OAB emite nota de repúdio às declarações de Fábio Candido
Entidade afirma que discurso do prefeito durante anúncio da Marcha para Jesus deve ser analisado à luz da laicidade do Estado e da pluralidade religiosa
A 22ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Rio Preto divulgou nesta segunda-feira (14) uma nota de repúdio às declarações do prefeito Fábio Candido (PL) durante o lançamento da Marcha para Jesus 2026 e a assinatura de decreto que reconhece a expressão “Rio Preto é de Jesus Cristo” como manifestação simbólica, cultural e religiosa da fé cristã no município.
Durante o evento, realizado no gabinete do prefeito, Candido afirmou que a administração municipal enfrentaria “dificuldades” provocadas pelas “trevas” que, segundo ele, “querem habitar este município”.
“Deus sabe, senhoras e senhores, as dificuldades que vamos enfrentar por parte das trevas que querem habitar este município”, declarou o prefeito.
Na nota, a OAB afirma que não questiona a liberdade de manifestação da fé cristã nem a realização de eventos religiosos. A entidade, porém, considera que a utilização desse tipo de linguagem por uma autoridade pública merece atenção diante dos princípios da laicidade do Estado e da pluralidade religiosa.
“Embora a manifestação da fé cristã e a realização de eventos religiosos sejam plenamente asseguradas pela liberdade religiosa, a utilização dessa linguagem por uma autoridade pública merece atenção sob a perspectiva da laicidade e da pluralidade religiosa”, afirma o documento.
A manifestação foi assinada pela presidente da OAB de Rio Preto, Izabela Fantazia da Silva Rejaili, pela presidente da Comissão de Igualdade e Equidade Racial, Camila Bernardo dos Santos Roque, e pela presidente do Núcleo de Liberdade Religiosa, Julia Nasar Baptista.
OAB cita Constituição
A entidade fundamenta o posicionamento nos artigos 5º e 19 da Constituição Federal. Segundo a OAB, o artigo 5º, inciso VI, garante a liberdade de consciência e de crença e o livre exercício dos cultos religiosos. Já o artigo 19, inciso I, estabelece limites à atuação do poder público em relação às religiões.
A nota afirma que agentes públicos devem respeitar a diversidade de crenças e convicções e evitar manifestações que possam estabelecer uma hierarquia entre religiões ou deslegitimar determinadas manifestações religiosas.
“Manifestações de agentes públicos devem observar o respeito à diversidade de crenças e convicções, evitando discursos que possam estabelecer hierarquia ou deslegitimação entre diferentes manifestações religiosas”, afirma a OAB.
Ao final, a entidade reafirma compromisso com a liberdade religiosa, a igualdade, a laicidade do Estado, o respeito à diversidade e o diálogo inter-religioso.
“A fé é livre. O Estado é de todos”, conclui a nota.
Decreto reconhece expressão religiosa
O decreto citado pela OAB é o nº 20.660, assinado em 3 de setembro durante o lançamento da Marcha para Jesus. O texto reconhece, no âmbito das manifestações culturais e religiosas realizadas em Rio Preto, a expressão “Rio Preto é de Jesus Cristo” como manifestação simbólica, cultural e religiosa da fé cristã de seus participantes.
O próprio decreto estabelece, porém, que o reconhecimento não representa a adoção de uma religião oficial pelo município nem concede preferência ou privilégio a determinada crença. A norma também prevê respeito à liberdade religiosa, ao pluralismo de crenças e à convivência entre manifestações religiosas, culturais e filosóficas.
Na semana passada, o prefeito já havia defendido o conteúdo do decreto. Em nota, Fábio Candido afirmou que a medida “não estabelece religião oficial, não determina qualquer prática religiosa e não concede privilégio a nenhuma crença”.
“Transformar um reconhecimento de caráter cultural e simbólico em uma suposta imposição religiosa é uma interpretação que não encontra respaldo no próprio texto do Decreto”, afirmou o prefeito.
Fábio Candido também declarou que é cristão e que não pretende esconder sua fé.
“Eu sou cristão e não tenho vergonha de afirmar a minha fé. Afirmar que Rio Preto é do Senhor Jesus Cristo é uma expressão que representa a fé de milhares de pessoas da nossa cidade e a tradição cristã que faz parte da nossa história”, disse.
O prefeito também sustentou que o reconhecimento da expressão não obriga outras pessoas a seguirem a religião cristã e afirmou que continuará defendendo a liberdade religiosa.
Outras manifestações
A controvérsia também gerou manifestações de movimentos e integrantes de conselhos municipais. Na semana passada, o Conselho Municipal Afro e o Conselho Municipal de Políticas Culturais (CMPC) divulgaram posicionamentos críticos ao episódio e apontaram preocupação com possível intolerância religiosa.
As manifestações se somam agora à nota da OAB, que concentra a crítica na necessidade de preservar a laicidade do poder público e a igualdade entre diferentes crenças.
Marcha será realizada no sábado
A Marcha para Jesus será realizada no próximo sábado (19), em Rio Preto. A concentração está marcada para as 17h, na Praça da Espanha, de onde os participantes seguirão até o Centro Regional de Eventos. A programação inclui apresentações de artistas e grupos do segmento gospel, entre eles Fernanda Brum, Eyshila e Renascer Praise.
A organização da Marcha informa que o evento reúne diferentes denominações cristãs e tem como proposta promover uma manifestação pública de fé, louvor e celebração.
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