Cidades
Casal de Rio Preto que fez show no litoral consegue voltar para casa
Casal de DJs relatou oportunismo e furtos; mas ressaltou a fé em momentos difíceis
“As ondas gigantes do ‘mar vermelho’ de Maresias é uma cena que eu jamais vou esquecer”. O relato é da DJ Thalia, casada com o saxofonista e também DJ, Matheus Sanches. Acostumados com a rotina de shows em eventos em datas festivas, os rio-pretenses foram contratados para tocar em uma boate com o projeto ‘OvenLive’, na cidade do litoral paulista, na madrugada de 18 de fevereiro. Data que vai ficar marcada para sempre.
Além de trabalhar, o casal pensou em levar as duas filhas e a família para aproveitar os dias de folga no Carnaval, mas até a tarde desta quarta-feira (22), enfrentavam um verdadeiro caos. Por volta das 19h15, eles conseguiram voltar para casa “com a graça de Deus”, conforme descreveu Thalia.
O Gazeta conversou com as vítimas. Confira os relatos.
Angústia, congestionamento e atraso
“Ainda em Rio Preto já comecei a ficar angustiada, não queria mais vir, mas era um compromisso de trabalho. A chuva forte começou no sábado e nosso show precisou ser atrasado. Para conseguir chegar na casa noturna, ficamos uma hora e meia parados no trânsito porque o congestionamento já estava grande. Encontramos um estacionamento no valor de R$ 100 e fomos a pé, carregando os equipamentos na chuva, chegamos encharcados”, conta.
“Nos arrumamos no camarim, fui me acalmando e um tempo depois começamos a tocar. O teto da boate parecia ser de acrílico, era transparente, dava para ver o céu e caía muita água, foi ficando desesperador porque essa água começou a cair na gente, formaram goteiras e a mesa de som foi arrastada para não molhar os equipamentos. O show terminaria 6h, mas era 4h30 quando o segurança pediu para todos se retirarem porque estava começando um alagamento”, relembra a DJ.
Ainda de acordo com Thalia, o maior pico da chuva foi por volta das 6h.
“Quando fui ver a situação fora da boate, vi os carros boiando, muita água, foi muito triste e não dava para caminhar. Acredito que o rio tenha transbordado com tanta água. Ficamos ali na boate seguros”.

“Maresias estava debaixo d´água”
“Por volta das dez horas da manhã, vimos um salva-vidas andando entre as águas em nossa direção. Ele foi até a boate e disse que a situação estava difícil e que havia acontecido um deslizamento grave. Ele recomendou que não saíssemos do local porque não havia garantia de que conseguiríamos passar pela água”.

“Minhas filhas”
“Mesmo com a recomendação do socorrista, eu disse a ele que minhas filhas estavam em Paúba (localizada em São Sebastião) e que não importava o que acontecesse, eu tinha que ter a certeza de que elas estavam bem. Ele então concordou em nos guiar caminhando pelo meio das águas, porque dos lados haviam bueiros e não tínhamos certeza da segurança. Fomos atrás dele, a água batendo na altura da cintura. Nós levamos os equipamentos no alto para não molhar”.
Oportunismo, orações e muito medo
“O salva vida nos guiou, mas não quis seguir até o final do trajeto. Quando terminou o alagamento, a gente ainda ficou em Maresias caminhando um pedaço, foi quando eu vi o mar. Depois passamos pela serra entre Maresias e Paúba, haviam muitos deslizamentos. Chegamos em um lugar que dava para ir de condução ou a pé. Algumas pessoas que pareciam estar familiarizadas com o local se ofereciam, diziam que eram motoristas de aplicativo e que nos levariam lá por R$ 80. Eram apenas três quilômetros de distância, senti uma tristeza muito grande, achei muito oportunista, estávamos todos em situação de desespero, desamparados, precisando de ajuda, sujos de lama, exaustos e preocupados com nossas filhas. Não tínhamos dinheiro em espécie e não dava para pagar via Pix porque não tinha sinal de internet”.
“Durante o trajeto, tivemos que subir a serra a pé, foi desesperador. Sentíamos muito medo, mas rezávamos o tempo todo. Eu refletia o tempo todo, pensava em Deus. Quando chegamos na casa em que alugamos, vimos que nossa família estava bem. Nos abraçamos e choramos muito. As meninas, que são crianças, não entendiam nada”.
Na viagem estavam as filhas do casal, o pai e a madrasta de Matheus, além da avó.
Carros inutilizados e furtos
“No dia seguinte, o meu marido retornou para Maresias, para ver a situação do carro. Ele encontrou muitos carros abertos e foi informado que houve muito furto em veículo. Haviam muitos carros perdidos também, inutilizados por causa da água. Um amigo nosso havia acabado de comprar uma Mercedes no valor de R$ 210 mil e teve perda total, o carro ainda não estava assegurado. O nosso carro estava aberto e a bateria estava toda desparafusada, tentaram arrancar, um mecânico nos confirmou isso”.


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