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Enchentes de Petrópolis matam pessoas e impactam na saúde mental

Artigo escrito pelo Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel

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Imagens fortes, cenas que lembram um filme de ficção. A fúria das águas numa chuva que há 90 anos não acontecia. Tamanha brutalidade da natureza em um espaço curto de tempo, destruindo vidas e a história de uma cidade histórica.

A cidade de Petrópolis, na região serrana do estado do Rio de Janeiro, foi devastada por águas sem controle, que pareciam ondas do mar, atingindo alturas acima de 3 metros, não poupando nada que estivesse pela frente.

Por um lado, poderíamos discutir as causas desta tragédia do ponto de vista climático e da infraestrutura urbana. Por outro lado, cabe a discussão acerca dos severos impactos desta enchente na saúde das pessoas.

A saúde física destas pessoas indiscutivelmente foi atingida por uma imensidão de elementos tóxicos, poluentes, infecciosos que, somados, irão causar doenças com repercussão pulmonar, renal e hepática, principalmente.

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Precisamos lembrar que enchentes desta magnitude produzem detritos de alguns animais como ratos, os quais se misturam com a própria água turva da enchente, tornando-se mecanismo direto de infecção e lesão em pessoas mais debilitadas, como crianças e idosos.

No entanto, se existe um impacto desta enchente que terá espaço na vida destas pessoas por tempo indeterminado, podendo literalmente desequilibrar famílias e relacionamentos, será o impacto mental.

Num primeiro momento, seria muito natural que considerássemos o fator mecânico das águas em fúria, a capacidade destas águas de destruir os lares e arrastar pessoas. Esta parte será apenas o início de uma sequência incontrolável de repercussões, principalmente afetando a estabilidade emocional dos sobreviventes e daqueles que testemunharam de perto tamanha tragédia.

As perdas materiais associadas às sensações de impotência e de ameaça serão responsáveis por muitas modificações negativas no equilíbrio mental destas pessoas. Alguns estudos já demonstraram quais as principais categorias de repercussões mentais a serem enfrentadas por estas pessoas:

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1) Estresse pós-traumático

Conviver com as lembranças recentes de uma tragédia, com as sensações de uma ameaça constante, justificam a ocorrência de estados depressivos, transtornos de ansiedade e o uso de substâncias ilícitas.

2) Ansiedade

As pessoas passaram a adotar atitudes intempestivas em sua rotina, com certo grau de desespero e aflição para resolver as coisas. O comportamento destas pessoas começa a prejudicar seus relacionamentos familiares e profissionais.

3) Depressão

A sensação de derrota e impotência frente à fúria da natureza, além da constatação da perda irreparável de familiares e amigos, impede que muitas pessoas se reergam emocionalmente. Estas pessoas acabam se tornando mais tristes, mais isoladas e com pouca motivação.

4) Aumento no consumo de álcool e cigarro

Buscar o escape para os problemas é típico em qualquer ser humano. Alguns depositam seus problemas na questão de comer muito, chorar muito, afastar-se de tudo que o cerca. Outros podem declinar para o consumo exagerado de álcool e cigarro. Na verdade, já existe um estado descontrolado de ansiedade que acaba propiciando maior envolvimento com álcool, cigarro e até drogas ilícitas.

5) Aumento no consumo de medicamentos

Poucas pessoas não usam algum tipo de medicamento, isto em condições normais. Diante de uma tragédia com mortes, pânico absoluto e perdas materiais, muito provável que estas pessoas necessitem do uso de medicamentos, por tempo indeterminado. Medicamentos ansiolíticos, antidepressivos e medicamentos indutores do sono estarão entre as principais categorias.

Não seria exagero afirmar que a tragédia de Petrópolis só começou, seus primeiros capítulos já foram publicados. Capítulos brutais e lamentáveis. Muitos fatos ainda virão, atingindo o equilíbrio emocional de muitas pessoas e muitas famílias.

Estas pessoas precisarão de muitas coisas daqui em diante, mais do que apoio logístico e fornecimento de insumos. Estas pessoas precisarão de muitas orações, muita ajuda humanitária, muito apoio das autoridades e muito amparo para sua grave fragilidade mental.

Reconstruir uma casa é extremamente diferente de reconstruir uma mente, voltar a ter paz. A missão de repor tijolos destruídos não será tão dolorosa como a missão de restaurar a motivação, de reencontrar o otimismo da vida e aquela sensação de equilíbrio mental.

A tragédia de Petrópolis resume a maior das carências humanas: a paz. Pode até ser que o tempo apague tantas mazelas desta tragédia e faça com que muitas destas mazelas sejam esquecidas, mas o trauma que fica, este será o grande desafio daqui pra frente. O que puder ser feito para atenuar este trauma deverá ser feito prontamente e mediante um seguimento de tantas pessoas que perderam tudo, inclusive sua paz de espírito.

Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel. Cardiologista com especialização em Cirurgia Cardiovascular, orientador de Nutrologia e Longevidade e coordenador da Faculdade de Medicina da Unilago. 

 

 

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