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Porque alguns livros perfumam a linguagem…

Artigo escrito por Lucila Papacosta Conte

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Faz alguns anos, fui apresentada à Anthônia. Tive um bom impacto ao conhecer sua visão de mundo. Fiquei pensativa e até reticente quanto a meu ceticismo. Será que eu afastara a poesia de meus dias com afazeres e valorização dos deveres e do império da razão? Conversar com ela, provocou-me sensação incômoda: desassossegou muitas certezas. 

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Ela não desiste de sonhar maneiras para encantar as pessoas. Já faz tempo que convida e marca encontros para apenas e simplesmente ler e escutar os sons das palavras bem arrumadas pelos poetas do mundo. É que o desencanto anda espalhando sementes de plantas ásperas e espinhosas. Mãos e sonhos andam feridos em contato com essas plantações, afirma.

As cantigas e os ritmos das quadrinhas, os sonetos de amor, as receitas de pães, bolos e de sopas fumegantes emolduram contos de fada e histórias de amor que sempre deram certo mesmo sem finais felizes. Até as teorias de pensadores divergentes que distribuem honestidade em suas considerações servem de tempero para o banquete de opiniões. 

As palavras bem ‘ditas’ e bem escritas semeiam ternuras e maravilhamentos. E uma lavoura de encantos vai se espalhando entre os áridos desertos e dentre os espinheiros. Com ideais assim demasiados quixotescos ela caminhou e caminhou até encontrar em si um ponto de apoio para inaugurar a ‘escola das maravilhas’. Treinando e exercitando as aptidões que todos têm para se encantarem com a poética da resistência ao desencanto. 

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Em cada família, em cada recanto do mundo existem pessoas como ela, e, certamente seja por isso que as mãos do Criador estejam prontas a abençoar a todos nós, os desencantados também. Pessoas inocentes seguram as mãos de Deus. A doce mulher possui uma genuína pureza que a muitos expulsa com um olhar. Diante dela, sempre permaneço reverente. Preciso me alimentar de seu cardápio, pois somente a dieta sem isso e nem aquilo tem me ressecado a alma e as sensibilidades. 

Estar perto dela é participar de um bailado à La Land, filme que “ cura qualquer mau humor”.  Sobre a beleza, ela abriu um livro pequenino de um autor português contemporâneo e leu: só existe a beleza se existir interlocutor. Continuou exemplificando: a beleza dessa rosa só acontece porque posso partilhar. Se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar a beleza ela não existirá. “A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro”. E conclui a leitura adaptada com uma voz já embaraçada pela emoção do encontro e do estabelecimento da cumplicidade: “ Todas as flores do mundo dependem de sermos ao menos dois. Para que um veja e o outro ouça. Sem um diálogo não há beleza e não há flores.

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De volta ao meu pequeno e solitário mundo, abri o livro e o grifado em tinta vermelha esbofeteou-me: AS MOEDAS ERAM DA FAMÍLIA DAS FACAS.  Resolvi passear pelos trechos em azul e eis que encontro: A poesia é a linguagem segundo a qual deus escreveu o mundo. (…). “Onde há palavra, há deus. Onde nasce a palavra, nasce deus. Todos os outros lugares são ermos sem dignidade”. Escolho a beleza das flores partilhadas à frieza solitária dos metais.  

O livro que inspirou esse texto: A Desumanização – de Valter Hugo Mãe

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