Cidades
Há 17 anos, Aldo leva sua trupe para alegrar pacientes em Rio Preto e região
Após superar uma doença, Aldo criou o ZEROCLoWN, projeto que há 17 anos leva acolhimento com sua trupe a hospitais de Rio Preto e Votuporanga
O silêncio dos corredores de um hospital pode ser interrompido por um riso inesperado. Às vezes, basta um olhar, um gesto ou um simples nariz vermelho para que o medo dê lugar à esperança de dias melhores. É exatamente isso que Aldo Hayrton Dezan, de 57 anos, faz há 17 anos. Ator, produtor cultural, arteterapeuta e fundador do projeto ZEROCLoWN, ele percorre semanalmente hospitais de Rio Preto e Votuporanga levando acolhimento a pacientes, familiares e profissionais da saúde.
Mas, antes de vestir o figurino de palhaço, Aldo conheceu a realidade do outro lado: a de quem espera um diagnóstico, convive com dores e passa meses tentando recuperar a própria saúde.
Tudo começou entre 2002 e 2003, quando uma tendinite aguda o afastou completamente do trabalho. O que parecia um período de descanso acabou se tornando um dos momentos mais chatos de sua vida.
“Eu vinha de um ritmo muito intenso de trabalho e, de repente, passei a não fazer mais nada. Nos três primeiros meses achei que estava de férias, porque tinha acumulado muito estresse. Depois, aquilo começou a me fazer muito mal. Sentia muitas dores e vivia procurando médicos em São Paulo”, conta o votuporanguense, que morava na capital paulista à época.
Foi durante esse período que surgiu um encontro capaz de mudar completamente sua trajetória. Por intermédio da irmã, Aldo passou a frequentar um grupo de atores e começou a atuar no local voluntariamente, para “passar o tempo”.
“Comecei a ir durante a semana para ajudar no que fosse preciso. Sem perceber, fui tirando o foco da doença. A linguagem do palhaço foi me encantando e, junto com o tratamento médico, fui melhorando. O que mais me marcou foi a conexão que eles criavam com pacientes e acompanhantes.”
A experiência foi tão transformadora que ele decidiu mudar completamente de vida.
“Entrei em um plano de demissão incentivada da empresa e abandonei tudo para estudar essa linguagem. Descobri que o voluntariado faz bem não apenas para quem recebe, mas principalmente para quem oferece esse cuidado.”
Ao retornar para Votuporanga, no fim de 2008, Aldo decidiu colocar em prática tudo o que havia aprendido.
Ao lado de um amigo de infância, iniciou visitas voluntárias à Santa Casa de Votuporanga. Em 2010, o projeto foi ampliado para o Hemocentro e, posteriormente, para o Hospital de Base de Rio Preto.
Nascia oficialmente o ZEROCLoWN
Hoje, as visitas acontecem semanalmente no Hemocentro, Hospital de Base, Hospital da Criança e Maternidade (HCM), Instituto do Câncer (ICA) e em outros setores do complexo Funfarme, além de hospitais de Votuporanga.
Além das intervenções hospitalares, o grupo promove oficinas gratuitas, formações para novos palhaços hospitalares e capacitações voltadas a projetos como os Sorrisoterapeutas, da Unifev, a Trupe das Amoras e o projeto Eis-me Aqui, da Famerp.
O impacto do trabalho vai muito além de quem recebe diretamente a visita dos palhaços. Segundo Aldo, aproximadamente mil pacientes são atendidos semanalmente. Outras 500 pessoas (entre acompanhantes e familiares) também participam dessas experiências.
“A gente brinca com uma pessoa e, naturalmente, o grupo ao lado acaba sendo contaminado pela alegria. No fim das contas, alcançamos cerca de cinco mil pessoas todos os meses.”
Para ele, a humanização não está apenas na brincadeira, mas principalmente na capacidade de enxergar cada paciente como indivíduo.

(arquivo pessoal cedido ao Gazeta de Rio Preto)
Um trem que ficou para sempre na memória
Entre milhares de histórias vividas ao longo desses anos, uma permanece inesquecível. Um menino em cuidados paliativos tinha um irmão que pediu aos palhaços um desenho de um trem. Eles fizeram não apenas um, mas três desenhos e transformaram aquele pedido em uma brincadeira dentro do quarto.
Por alguns minutos, o ambiente deixou de ser marcado pela doença. No dia seguinte, a criança morreu.
“Aquilo nos ensinou que nem sempre estamos ali para mudar a realidade. Às vezes, basta estar presente. Um desenho ou um gesto de carinho pode se transformar na lembrança mais preciosa que uma família levará daquele momento.”
Com o passar dos anos, Aldo também mudou a forma de atuar. Hoje, quase não leva acessórios para dentro dos hospitais.
“No começo eu dependia muito dos objetos. Depois percebi que eles funcionavam como uma muleta. Hoje entro praticamente só com o nariz vermelho. Confio muito mais na escuta, na improvisação e na relação construída com cada paciente. Muitas vezes, um olhar vale mais do que qualquer acessório.”
Essa simplicidade faz com que muitas crianças aguardem a chegada da equipe todas as semanas.

(arquivo pessoal cedido ao Gazeta de Rio Preto)
Novos sonhos
Embora o ZEROCLoWN já esteja consolidado nos hospitais da região, Aldo pretende ampliar ainda mais o projeto.
Entre os planos está a expansão das ações para instituições de longa permanência para idosos e outros espaços de acolhimento. Também pretende transferir definitivamente as atividades para Rio Preto.
“Hoje somos procurados por empresários e por pessoas que querem ajudar essa expansão. Nosso objetivo é chegar a outros lugares onde o acolhimento também faz diferença.”
Para que isso aconteça, o projeto depende da captação de recursos por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Enquadrado no artigo 18 da Lei Rouanet, o ZEROCLoWN pode receber recursos de empresas tributadas pelo Lucro Real, que destinam parte do Imposto de Renda devido sem aumento da carga tributária.
“Nosso compromisso é estar presente todas as semanas. Muitas empresas ainda não sabem que podem apoiar um projeto como esse utilizando a Lei de Incentivo, sem pagar nenhum imposto a mais. Esse apoio garante que possamos continuar levando acolhimento e ampliar nosso trabalho para quem mais precisa”, finaliza.

(arquivo pessoal cedido ao Gazeta de Rio Preto)
Esta reportagem é exclusiva do jornal Gazeta de Rio Preto e de autoria da jornalista Karol Granchi. É proibida a reprodução, cópia, publicação, distribuição ou utilização total ou parcial deste conteúdo, por qualquer meio, sem autorização prévia e expressa da autora e do veículo. A reprodução não autorizada constitui violação aos direitos autorais, nos termos da Lei Federal nº 9.610/1998
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