Cidades
Dois transplantes de coração em 24 horas
Integrantes da equipe médica viajaram mais 1,7 mil quilômetros e ficaram 42 horas sem dormir para salvarem dois bebês
Em um intervalo de 24 horas, o Hospital da Criança e Maternidade (HCM) de Rio Preto realizou dois transplantes de coração em bebês, ambos com 10 meses. O procedimento inédito no município aconteceu entre a noite de terça-feira, dia 19 e finalizado na quarta-feira, dia 20. Equipes médicas realizaram duas viagens, uma para São Paulo e outra para Maringá (PR), para captação dos órgãos. Um dos bebês estava internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) em estado gravíssimo e já sofria falência de múltiplos órgãos.
O chefe do Serviço de Cardiologia e Cirurgia Cardiovascular Pediátrica do HCM, Ulisses Croti, participou dos procedimentos. Ele e integrantes da equipe ficaram 42 horas acordados e viajaram mais de 1,7 mil quilômetros. “Foi algo inédito em Rio Preto, conseguimos em 24 horas dois órgãos. Tínhamos duas crianças em nossa UTI esperando esses corações. Uma dela em um estado pré-morte e já sofria falência de múltiplos órgãos”, afirma.
Croti explica como os procedimentos foram realizados. “Começou na terça-feira, às 19h, quando fomos informados que tinha um coração para Emanuelly no Hospital Municipal de Tatuapé. Então mobilizamos nossa equipe enquanto a Organização de Procura de Órgãos (OPO) preparou a logística. Decolamos de Rio Preto e pousamos em Guarulhos. Seguimos até o hospital para a captação do órgão e retornamos próximo das 2h da manhã de quarta-feira. Ali começamos o implante e todo procedimento foi finalizado às 6h da manhã”, conta.
O que os profissionais não esperavam é que em menos de 30 minutos um novo órgão estaria sendo oferecido pela OPO do Paraná. “Tínhamos o João Pedro que estava muito grave, em uma situação pré-morte. Mesmo fazendo tudo por essa criança ela já não respondia aos tratamentos e só um transplante para salvá-la. Então a partir daquele contato já iniciamos o preparativo para um novo transplante”, afirma doutor Ulisses.
Perto do meio-dia, a equipe já estava dentro de outro avião e seguia em direção a Maringá. “Retornamos para Rio Preto às 15h30 e começamos o transplante do João. Foi um procedimento muito difícil, a criança já tinha sofrido paradas. Concluímos o transplante às 19h30”, explica Croti.
A coordenadora da UTI cardiopediatrica Karolyne Barroca Sanches, comentou sobre a recuperação dos bebês. “Tanto na Emanuelly quanto no João Pedro, nós vemos uma recuperação efetiva dentro das primeiras 24 horas. A paciente Emmanuelly, conseguimos entubar, ou seja, ela já respira por meios próprios sem assistência ventilatória. Ela está no leito e chupando chupeta, isso nos deixa muito feliz. Nestas 72 horas é um processo de adaptação fisiológica. Mas a evolução está acontecendo e acreditamos que dentro de duas semanas ela tenha alta para o quarto”, conta.
“Já o João é um quadro mais delicado, pois o estado de saúde dele era mais crítico. Ele ainda precisa de uma ajuda respiratória, para restabelecer pulmão e coração, nas próximas 48 horas poderemos retirar a ventilação mecânica. Os órgãos que estava sofrendo sobrecarga e agora esperamos que voltem a funcionarem sozinhos. Nas próximas semanas acreditamos em uma boa evolução”, conclui a Sanches.
Vitória no sobrenome e na vida
Emanuelly Vitória da Silva Pinheiro, de 10 meses, estava internada na UTI do HCM há 92 dias e aguardavam na fila um coração que fosse compatível. No início da noite desta terça-feira, dia 19, a mãe da bebê, Karina Cristina da Silva, 17 anos, foi informada que equipes médicas estavam indo para São Paulo, pois tinha surgido um doador. “Naquele momento foi uma mistura de sentimentos, tensão, angustia, esperança e felicidade” conta.
Mãe e filha vieram há três meses de São Carlos para Rio Preto. “Desde que chegamos nunca perdi a esperança, as noites pedia para Deus para não abandonar minha filha. Nesta quarta-feira, quando a equipe médica disse que o transplante tinha realizado, não acreditava que ela passou por tudo isso, mesmo tão pequena, é uma guerreira, Vitória ela traz no nome e também na vida” conta Karina.
“Novo coração batendo forte na minha filha é uma felicidade muito grande. Antes não ouvia os batimentos dela. Ficava com ela no colo sentia uma leve vibração no peito, agora é possível ouvir o coraçãozinho dela. É uma emoção muito grande”, afirma a mãe, que não conseguia conter as lágrimas.
Quase 3 mil quilômetros longe de casa
O drama do casal Jociane da Silva, de 32 anos, e Demilso Gonzaga, 32, começou no segundo semestre do ano passado. O pequeno João Pedro, hoje com 10 meses, foi diagnosticado como cardíaca congênita, uma alteração na estrutura do seu coração presente antes mesmo do nascimento. Em outubro, os pais, o bebê e mais uma filha do casal, na esperança de um transplante se mudaram de Ji-Paraná, no estado de Rondônia, para Rio Preto. Uma distância superior a 2,7 mil quilômetros.
Após 93 dias internado, o bebê poderia morrer caso não acontecesse o transplante. A família pode acompanhar de perto os preparativos do transplante da pequena Emanuelly.
“A Karina (mãe de Emanuelly) ainda nos disse para não perdemos a fé. Neste mesmo dia fomos embora eu e minha esposa. Não estava conseguindo dormir quando e minha mulher me chamou para deitar, falei para ela que já ia. Neste momento fechei meus olhos, sabendo o estado complicado de saúde do meu filho e disse: ‘Deus entrego tudo em suas mãos estou dando meu melhor, assim como a equipe médica, que estão fazendo o melhor para manter meu filho vivo’. E após este pedido fui dormir, na tarde do dia seguinte, o hospital entrou em contato e solicitou que fossemos até lá”, conta Demilso.
Naquela tarde, o casal foi informando de um doador em Maringá. O transplante foi considerado um sucesso pelas equipes médica. Bastante emocionado na manhã desta quinta-feira, Demilso e a mulher dele, não conseguiam conter as lágrimas. “Meu choro hoje, diferente das semanas que se passaram, não é mais de tristeza, mas sim de alegria. É a vida que renasce, dois milagres aconteceram em um dia só. Agradeço a Deus e a dedicação das equipes médicas. Não vejo a hora de abraçar meu filho e falar para ele que tudo acabou’, disse Jociane bastante emocionada.
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