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Há 32 anos, morria Wagner Bello, o Etevaldo que também passou por Rio Preto

Atriz Valéria Sândalo, que foi casada com Wagner Bello, falou com exclusividade à Gazeta de Rio Preto e revelou detalhes da vida pessoal, do relacionamento e dos últimos dias do artista que marcou uma geração no Castelo Rá Tim Bum

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Reprodução TV Cultura/ Instagram Valéria Sândalo
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Há personagens que atravessam gerações e continuam vivos na memória do público mesmo décadas depois. É o caso de Etevaldo, o extraterrestre curioso de Castelo Rá-Tim-Bum (TV Cultura), eternizado pelo ator Wagner Bello. Na última quarta-feira (12/8), completaram-se 32 anos da morte do artista, que faleceu em 12 de agosto de 1994, um mês antes de completar 31 anos, em São Paulo.

Wagner José Laurino nasceu no dia 19 de setembro de 1963, no Hospital do Servidor Público Estadual, no Ibirapuera, em São Paulo. Diferentemente do que a Gazeta de Rio Preto havia publicado, ele não nasceu em Rio Preto, conforme várias afirmações do meio artístico.

Segundo a atriz Valéria Sândalo, que foi casada com o ator, a relação de Wagner Bello com o município se deve ao fato de ele ter se apresentado em uma das edições do Festival Internacional de Teatro, o FIT.

“Como o Bello morreu há muito tempo, não tinha internet e não tem muitos dados sobre a vida dele. Para você ter uma ideia, o irmão mais novo dele errou a data de nascimento em uma entrevista. O Bello nasceu em 63 e não em 64, como é divulgado em muitos lugares. Eu tenho quase certeza de que a primeira vez que o Bello foi para Rio Preto foi no Festival Internacional de Teatro. Isso deve ter sido em 1986 ou 1987”, afirmou a atriz.

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“Conheci o Bello quando eu tinha 16 anos, ele tinha 20. Eu estava fazendo a última semana de estágio em uma escola de teatro, e ele já cursava Letras. Eram dez bolsas nesse curso de teatro. A gente se conheceu e grudou, primeiro como amigos. Eu me apaixonei por ele por admiração”, contou ao Gazeta.

“Ele era muito feio e ganhou esse apelido, Bello, na Escola Técnica de São Paulo”, brincou a atriz. “Mas ele era um cara muito talentoso.”

“Ficamos alguns anos sem nos ver e nos reaproximamos quando eu fazia um trabalho de dublagem em um vídeo técnico, na produtora de uns amigos meus. Eles precisavam de várias pessoas, e eu chamei o Bello. Na época, ele fazia um projeto na Secretaria Estadual do Menor e do Adolescente, de complementação de aulas.”

“A gente começou a se ver de novo. Ele não dirigia e, um dia, eu estava levando-o de volta para casa, quando ele pediu para eu desligar o carro. Ele tirou um anel de rubi e me pediu em casamento, do nada. Nos casamos em 18 de dezembro de 1991. A gente viajou para a França, para visitar uma amiga, e depois passeamos pela Europa”, relembrou.

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(Wagner Bello e a atriz Valéria Sândalo, no dia do casamento.  Foto: arquivo pessoal de Valéria Sândalo)

Formado pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (EAD-USP), construiu sua carreira principalmente nos palcos e chegou a ser reconhecido com o Prêmio APETESP de Melhor Ator pelo trabalho na peça Enq, o Gnomo.

(Wagner Bello no espetáculo Enq, o Gnomo. Foto: Reprodução/TV Cultura)

Foi justamente no teatro que surgiu a oportunidade que o levaria a ser conhecido por milhares de crianças. O cineasta Phillippe Barcinski conheceu o trabalho de Wagner e o indicou para participar dos testes para Castelo Rá-Tim-Bum, produção da TV Cultura.

Aprovado para interpretar Etevaldo, Wagner deu vida a um personagem vindo de outro planeta, marcado pelo humor e pela curiosidade. O extraterrestre rapidamente ganhou espaço entre os personagens mais queridos do programa e se tornou uma das marcas da produção infantil.

(TV Cultura/Divulgação)

Casamento abalado e atuação até o limite

Enquanto a série ainda estava sendo produzida, Wagner Bello enfrentou problemas de saúde decorrentes do HIV. Mesmo debilitado, continuou participando das gravações enquanto sua condição permitiu, chegando a registrar cenas até pouco antes de sua morte.

“Após o fim do casamento, muitos amigos nossos e até a mãe dele não sabiam que havíamos terminado porque ele não contou para ninguém. Da separação até a morte dele, foram aproximadamente 31 dias. Ele começou a passar mal logo após a separação”, lembra Valéria.

“Ele me amava, eu tenho certeza absoluta. Mas o Bello era homossexual. Não sei dizer se houve traição ou se ele já tinha HIV quando nos casamos. Mas o conheci já com a saúde debilitada, porque ele tinha problemas no pulmão desde a infância”, revelou a atriz.

“A primeira pessoa que me falou foi a Siomara Schoröder. Ela me disse que a suspeita era câncer no estômago, porque nada parava no estômago dele, ou HIV. Depois veio a confirmação do exame. Eu fiquei louca. Eu precisava saber se eu tinha HIV. Eu fiz o exame com a Soraia e depois peguei o resultado. Li ajoelhada no consultório. Eu pedi para avisarem a ele que eu não tinha a doença. Ele já não falava mais, ele só escrevia. Ele morreu em uma sexta-feira, às 7h. Eu fui para a casa dos pais dele”, relembra.

Segundo relato de Leila Maria Russo, produtora da TV Cultura, em entrevista ao escritor e roteirista Fernando Vitolo, Wagner Bello chegou a comparecer ao estúdio mesmo com a saúde bastante debilitada para continuar gravando as cenas de Etevaldo. De acordo com ela, o ator precisou utilizar um balão de oxigênio durante as gravações. Ainda assim, seu estado de saúde não transparecia diante das câmeras, tamanha a dedicação ao personagem e o profissionalismo demonstrado durante sua atuação.

A ausência de Bello deixou um desafio para a produção: como explicar às crianças o desaparecimento repentino de Etevaldo? A solução encontrada foi transformar a despedida em um momento delicado e fantasioso, mantendo a linguagem característica do programa.

A produção recorreu à atriz Siomara Schoröder, grande amiga de Wagner, que participou da história interpretando Etecetera, irmã de Etevaldo. A personagem apareceu para explicar que o extraterrestre havia partido para viver nas estrelas.

“Se ele estivesse vivo, ele seria um estouro na internet. Ele era o meu irmão. Tem muito pouca coisa sobre ele, mas pensa em um cara que era tudo! A única coisa que ele não sabia fazer era dirigir carros”, contou a atriz em entrevista para Vitolo. Ela também participou da série em outro episódio, interpretando Etelvina, a mãe de Etevaldo.

Assim, a saída de Etevaldo da série foi apresentada de maneira lúdica ao público infantil, sem abordar diretamente a doença ou a morte do intérprete.

“Era um preconceito falar sobre HIV. A gente não podia falar nada. Foi muito triste, foi devastador para mim”, relembrou a atriz. “Ele foi até onde ele conseguiu. Foi um ator raiz.”

Artista além da televisão

Antes de se tornar conhecido na televisão, Wagner Bello já tinha uma trajetória ligada às artes cênicas. Além da atuação, trabalhava como maquiador e professor, dedicando-se também ao ensino e à maquiagem teatral.

O corpo do ator está enterrado no Cemitério Municipal Chora Menino, em São Paulo. Para sempre, “Etevaldo, um cara legal…”

Esta reportagem é exclusiva do jornal Gazeta de Rio Preto e de autoria da jornalista Karol Granchi. É proibida a reprodução, cópia, publicação, distribuição ou utilização total ou parcial deste conteúdo, por qualquer meio, sem autorização prévia e expressa da autora e do veículo. A reprodução não autorizada constitui violação aos direitos autorais, nos termos da Lei Federal nº 9.610/1998.

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