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Novela, futebol e política (religião)
Artigo escrito pelo analista político, Henrique Morgado Casseb
Durante décadas, o Brasil foi conhecido como o país do futebol e do carnaval. Embora essas manifestações culturais sejam motivo de orgulho nacional, reduzir a identidade de um país continental a apenas dois símbolos sempre pareceu simplista demais diante da riqueza de sua história, de suas conquistas e de sua diversidade. Só que hoje, isso invadiu a política.
As novelas sempre trabalharam com personagens facilmente identificáveis. De um lado, o mocinho. Do outro, o vilão. O bem contra o mal. A trama se desenvolvia até o último capítulo, quando os bons eram recompensados, os maus punidos e todos viviam felizes para sempre.
A polarização que domina o debate público — e que não nasceu ontem, mas vem sendo construída há décadas, especialmente desde os embates entre PT e PSDB — passou a transformar cada escândalo político em um novo capítulo de novela ou apenas mais uma disputa entre heróis e vilões.
A política deixou de ser exercício de cidadania, fiscalização e cobrança dos governantes para se transformar em torcida organizada. Se foi alguém do meu lado, procura-se uma justificativa. Se foi alguém do outro lado, exige-se condenação imediata.
As redes sociais ampliaram esse fenômeno de maneira inédita. Seus algoritmos criam bolhas que apresentam ao usuário apenas aquilo que confirma suas crenças. Aos poucos, surge a sensação de que todos pensam da mesma forma, qualquer opinião divergente representa ignorância, má-fé ou corrupção moral. Um verdadeiro monopólio da razão.
Assim, as torcidas políticas tornam-se capazes de defender seus líderes mesmo diante das evidências mais contundentes de erros, abusos ou corrupção. E a novela continua.
No final, temos uma mistura curiosa: capítulos de novela interpretados por torcidas organizadas de futebol, discutidos dentro de bolhas digitais. Talvez seja justamente por isso que tantas pessoas repitam que política não se discute.
Mas o problema não está na discussão. O problema está na forma como ela é feita.
Enquanto a política for encarada como uma disputa entre mocinhos e vilões, qualquer diálogo se tornará impossível. Não haverá troca de argumentos, mas apenas confrontos de paixões. O resultado é previsível: uma sociedade cada vez menos capaz de ouvir quem pensa diferente.
O casamento do último capítulo acontece todos os dias nos bastidores.
É lá que adversários públicos negociam emendas parlamentares, enterram CPIs. Enquanto as torcidas brigam nas arquibancadas digitais.
Piora mais quando a fé se mistura à lógica da novela e da torcida organizada, criando um cenário ainda mais perigoso. Deus passa a ser utilizado como instrumento de validação política.
É justamente nesse ponto que muitos se afastam dos ensinamentos de Jesus. Não do Jesus adaptado às conveniências ideológicas de cada grupo, mas daquele que pregava amor ao próximo, misericórdia, humildade e respeito ao ser humano independentemente de sua origem, condição ou posição.
O Brasil precisa menos de bolhas e muito mais de cidadãos dispostos a compreender que a política não é um campeonato, não é uma guerra e muito menos uma obra de ficção, porque a vida real não termina no último capítulo. Ela continua no dia seguinte. E todos nós teremos de conviver uns com os outros quando os créditos finais subirem.
Henrique Morgado Casseb, analista político da rádio CBN Grandes Lagos, professor universitário da faculdade Themis e presidente da Comissão de Direito Constitucional da OAB.
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