Saúde
Do simples ao sofisticado: as cascas das frutas podem prevenir doenças básicas e complexas
Artigo escrito pelo Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel
A natureza nos oferece incontáveis opções de sobrevivência, principalmente quanto às fontes alimentares. Entretanto, a cada ano, as taxas de fome e desnutrição aumentam e, consequentemente, convivemos com altas taxas de mortalidade de crianças e adultos.
Embora seja paradoxal, a fome e a desnutrição contracenam com o desperdício. A oferta de alimentos é tão fácil que se torna muito frequente jogar fora muitos alimentos que ainda poderiam ser viáveis. Especialmente no caso das frutas cítricas, como limão, laranja e tangerina, o que mais se observa, além do desperdício da fruta em si, é a não utilização consciente das cascas dessas frutas. Essas cascas apresentam quantidade considerável de vitaminas e antioxidantes, como carotenos, pectina, óleos essenciais e compostos fenólicos.
Como exemplos desses compostos fenólicos, podemos citar os flavonoides, as cumarinas e os ácidos fenólicos, todos capazes de prevenir doenças infecciosas e degenerativas. Além disso, estudos epidemiológicos demonstram que o consumo de frutas cítricas em sua totalidade, incluindo as cascas, pode reduzir em mais de 20% o risco de câncer.
Um dos mais temidos aspectos relacionados ao câncer é o risco de metástases. O câncer costuma ocupar um órgão que chamamos de sítio primário e, quando não diagnosticado e tratado de forma precoce, pode se alastrar, criando raízes em órgãos mais distantes. Essas raízes são as metástases. O câncer primário produz proteínas chamadas metaloproteinases, que facilitam a disseminação da doença para outros órgãos. Muitos estudos apontam que flavonoides como quercetina e luteolina são capazes de inibir a síntese dessas proteínas e promover um efeito antimetastático.
Não podemos esquecer que, em continentes como a América Latina e a África, existem inúmeros registros de mortalidade de crianças e adultos como consequência da diarreia e de infecções associadas à precária infraestrutura de esgoto e moradias. Quando pesquisadores demonstram que as cascas das frutas têm expressiva propriedade antibacteriana e conseguem regular a flora intestinal, verificamos que temos um importante aliado natural e barato para prevenir tantos casos de morte.
O potencial protetor das cascas de frutas cítricas é maior do que se imagina. Já citamos suas propriedades benéficas contra o câncer, infecções e doenças degenerativas. No universo das doenças cardiovasculares, destacadamente o infarto do coração e o derrame cerebral, as cascas podem exercer um importante efeito contra a formação de placas de gordura no interior dos vasos sanguíneos.
Do ponto de vista prático, vocês devem estar questionando como seria possível consumir essas cascas e efetivamente desfrutar de tantas propriedades benéficas. Antes de apresentar uma relação de opções para esse consumo, vale ressaltar o papel essencial da indústria em explorar de forma consciente esses alimentos com casca, tendo em vista um enorme impacto social e de sobrevivência. Basicamente, algumas técnicas de extração dos ativos presentes nas cascas não exigem altos custos e são métodos relativamente simples, como a extração com água quente ou mesmo a extração com solventes não tóxicos.
Em relação ao consumo dos ativos das cascas, podemos citar algumas apresentações já estudadas e com bons resultados clínicos:
- Transformar as cascas das frutas cítricas em um farelo, o qual pode ser adicionado a alimentos básicos, como arroz e feijão.
- Ingerir o suco das frutas cítricas, não somente utilizando as polpas, mas especialmente as cascas.
- Utilizar as cascas das frutas cítricas na forma de infusão, como um chá.
- Utilizar os óleos essenciais extraídos das cascas como um produto que pode ser inalado por períodos de até 30 minutos, visando à redução do estresse e da ansiedade.
- Utilizar os ativos das cascas na forma de cápsulas ou suplementos alimentares, em conjunto com proteínas e minerais. Pensando nas populações mais carentes e com limitadas condições alimentares, pode ser uma alternativa muito interessante.
Fica, então, um apelo para maior aproveitamento das cascas das frutas cítricas, um alimento barato e acessível, com propriedades protetoras para a maioria das doenças. Diante das relevantes estatísticas de mortalidade de crianças e adultos por causas teoricamente inadmissíveis em pleno século XXI, vamos lutar contra o desperdício e os contrastes de um mundo que ostenta riquezas materiais e mortes por desnutrição. A atuação da indústria pode ser determinante para tornar acessíveis às pessoas mais carentes os valores nutricionais das cascas, as quais muitas vezes terminam no fundo das latas de lixo.
Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel. Cardiologista com especialização em Cirurgia Cardiovascular, orientador de Nutrologia e Longevidade e coordenador da Faculdade de Medicina da Unilago.
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