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Ações pró-armas de Trump devem favorecer facções criminosas no Brasil
Flexibilização das regras para venda de armamentos nos Estados Unidos pode facilitar o acesso de facções criminosas brasileiras a fuzis e peças de armas, avaliam pesquisadores
O pacote de medidas anunciado pelo governo do presidente Donald Trump para flexibilizar as regras de comercialização de armas de fogo nos Estados Unidos acendeu um alerta entre especialistas em segurança pública. Na avaliação de pesquisadores ouvidos pela Agência Brasil, as mudanças podem favorecer o tráfico internacional de armamentos e ampliar o acesso de organizações criminosas brasileiras a armas de alto poder de fogo.
Entre as propostas apresentadas pelo Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF) estão a autorização para compra de armas pelos Correios, a redução do período de armazenamento dos registros de vendas por comerciantes e a flexibilização das consultas de antecedentes dos compradores.
A preocupação se deve ao papel dos Estados Unidos como um dos principais fornecedores de armas ilegais que chegam à América Latina. Estudos apontam que grande parte dos armamentos apreendidos com organizações criminosas em países como México, Haiti e nações do Caribe tem origem no mercado norte-americano.
No Brasil, uma pesquisa publicada na revista científica Journal of Illicit Economies and Development mostrou que, entre os cerca de 1,7 mil fuzis apreendidos na Região Sudeste entre 2019 e 2023, mais da metade teve origem nos Estados Unidos. Os dados colocam o país como a principal fonte desse tipo de armamento ilegal utilizado por facções criminosas.
Um dos autores do estudo e consultor sênior do Instituto Sou da Paz, Bruno Langeani, afirma que a flexibilização das regras pode facilitar ainda mais a circulação de armas e componentes no mercado ilegal. Segundo ele, o comércio de peças separadas representa um dos principais desafios para as autoridades, já que esses itens podem ser enviados desmontados e passam com maior facilidade pelos sistemas de fiscalização em portos, aeroportos e serviços postais.
Além dos fuzis, o levantamento indica que, considerando todas as armas de perfil militar apreendidas no Sudeste, o Brasil aparece como principal país de origem, seguido pelos Estados Unidos, Alemanha e Bélgica. Os pesquisadores ressaltam, porém, que a ausência de informações sobre a procedência de parte dos armamentos apreendidos dificulta uma avaliação mais precisa do fluxo do tráfico internacional.
Outro ponto destacado pelos especialistas é a decisão do governo norte-americano, tomada em 2025, de retirar restrições para exportação de armas a 36 países, entre eles Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia e Suriname, nações que fazem fronteira ou mantêm proximidade com o Brasil e que enfrentam problemas relacionados ao desvio de armamentos.
Para o pesquisador Robson Rodrigues, do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), existe uma contradição entre o discurso de combate ao crime organizado e as medidas de flexibilização do mercado de armas. Segundo ele, ampliar a oferta de armamentos sem reforçar os mecanismos de controle pode fortalecer organizações criminosas que atuam em diferentes países.
Dados da Associação Comercial da Indústria de Armas de Fogo dos Estados Unidos mostram que o setor registrou forte crescimento nos últimos anos. Entre 2008 e 2024, o faturamento da indústria aumentou 379%, alcançando US$ 91,7 bilhões, enquanto o número de empregos mais que dobrou no período, chegando a cerca de 382 mil postos de trabalho.
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