Cultura
Ator rio-pretense atua em filme de ‘Sintonia’ na Netflix
Criado na zona norte de Rio Preto, ator de 22 anos integra elenco de “Nando Entre Dois Mundos – Um Filme Sintonia” e constrói carreira entre cinema, teatro e musicais
Da zona norte de São José do Rio Preto, a 450 km da capital paulista, para um dos maiores serviços de streaming do mundo. Aos 22 anos, o ator rio-pretense Victor Galisteu vive uma fase que, por muito tempo, existiu apenas como sonho. Ele está no elenco de Nando Entre Dois Mundos – Um Filme Sintonia, longa que expande o universo da série Sintonia, da Netflix, sob direção de Johnny Araújo. No filme, Victor contracena com nomes já conhecidos do público brasileiro, como Christian Malheiros, Jottapê, Bruna Mascarenhas e Duda Pimenta. A produção marca uma nova etapa da história de Nando e foi lançada pela Netflix em agosto deste ano.

(Victor Galisteu em Nando Entre Dois Mundos – Um Filme Sintonia. Reprodução/ Netflix)
Para Victor, porém, chegar a um set desse tamanho não representa apenas uma conquista profissional. É também a materialização de uma vontade que começou muito antes das câmeras profissionais, quando ainda era menino em Rio Preto. “Sou rio-pretense da gema! kkkkk”, brinca.
“Nasci no bairro Eldorado e vivi lá até os 12 anos, quando me mudei para a zona leste da cidade. Cresci cercado pela minha família e pelos meus amigos, e estudei em Rio Preto durante praticamente toda a minha formação escolar”, conta ao Gazeta de Rio Preto.

(Victor Galisteu (arquivo pessoal cedido à Gazeta de Rio Preto))
Mais do que os nomes das escolas, entretanto, são as memórias afetivas que Victor carrega de Rio Preto que ajudam a explicar de onde ele veio. Ele lembra das tardes com amigos, dos passeios ao shopping, cinema e clube, dos barzinhos quando ficou mais velho e, principalmente, do período em que jogava futsal no Clube Monte Líbano. Foi ali, ainda criança, que acumulou algumas das lembranças que hoje olha com carinho.
“Talvez as lembranças mais gostosas da minha infância sejam justamente as ligadas à minha família. Durante uma fase da minha vida, eu morava na mesma rua que a minha avó, meus tios e minhas primas, a Lu e a Gi, que eu amo de paixão e que também sempre foram grandes incentivadoras da minha carreira, assim como toda a minha família. Eu vivia dormindo na casa delas, elas dormiam na minha, ou então todo mundo ficava na casa da minha avó. Era uma diversão sem fim.”
Mas a relação com a arte começou antes mesmo do teatro. “Eu nunca fui uma criança muito tímida, sempre fui bastante desinibido”, conta.

(Victor Galisteu. arquivo pessoal cedido à Gazeta de Rio Preto)
Antes de frequentar aulas de interpretação, Victor já produzia vídeos caseiros para o próprio canal no YouTube. Inventava histórias, fazia brincadeiras e experimentava diante da câmera. A vontade de comunicar, interpretar e entreter, percebe hoje, já estava presente.
A virada aconteceu na escola, durante uma apresentação de literatura. O professor Márcio Zati percebeu o potencial do aluno e o incentivou a procurar aulas de teatro. Foi assim que Victor chegou à Cia Cênica, onde teve aulas com a professora Beta Cunha. Depois vieram experiências no SESI, no Centro Cultural Vasco e, mais tarde, na Escola Lígia Aydar, onde aprofundou o contato com teatro musical, atuação e canto, tendo professores como Bha Prince e Malu Oliveira.
“O mais curioso é que tudo começou quase como uma brincadeira, sem grandes pretensões, e foi tomando um espaço cada vez maior na minha vida. E eu tive muita sorte de sempre estar cercado de pessoas que me incentivaram. Meus avós foram e continuam sendo fundamentais, me ajudando de todas as formas para que eu pudesse estudar, trabalhar e construir minha carreira mesmo longe de casa. Meus pais, apesar da saudade, nunca tentaram me fazer desistir ou voltar atrás; pelo contrário, sempre entenderam que eu precisava ir em busca de algo maior. Minha prima Giovanna também teve um papel muito importante desde o começo. Foi uma das primeiras pessoas a me ajudar com roteiros e até a editar os meus primeiros vídeos.”
O que começou quase como brincadeira ganhou outro tamanho. “Quando percebi, aquilo já não era mais só uma atividade que eu gostava de fazer. Era o caminho que eu queria seguir.”

(Victor Galisteu. Reprodução/ Rede Globo)
O menino de Rio Preto que decidiu partir
Em janeiro de 2022, antes mesmo de completar 18 anos, Victor tomou uma decisão que mudaria sua vida: deixou Rio Preto e foi para a capital paulista para estudar e buscar espaço profissional como ator. A trajetória, no entanto, também passou pelo Rio de Janeiro. Naquele mesmo ano, ele foi convidado para participar do musical “Meninos e Meninas” e acabou permanecendo na cidade por mais de quatro anos.
Durante esse período, dividiu apartamento com três amigos e construiu uma espécie de segunda família longe de casa. Em julho de 2026, entregou o apartamento e decidiu começar outra fase. Desta vez, de volta a São Paulo.
“Sair de um lugar onde eu já estava confortável para começar uma nova fase exige coragem, mas faz parte dessa busca constante por crescimento e por continuar lutando pelos meus sonhos.”
A mudança veio justamente em um momento de expansão profissional.
A rotina por trás do “sim”
Para quem vê o nome de um ator nos créditos de um filme ou em uma plataforma de streaming, pode parecer que a oportunidade simplesmente apareceu. Victor conhece bem o outro lado dessa história. Os testes fazem parte da rotina.
Depois da pandemia, muitos deles passaram a ser feitos inicialmente de forma remota. O ator recebe o material, prepara o ambiente, cuida da iluminação, do áudio, do enquadramento, grava a apresentação e interpreta a cena. “Hoje a gente precisa entender um pouco de enquadramento, iluminação, áudio, gravação… Na maioria das vezes, somos nós por nós mesmos ali diante da câmera.”
Ele conta que costuma enviar testes praticamente todos os meses e, em períodos mais movimentados, chega a fazer um por semana. O trabalho, porém, também exige preparo emocional. Em uma profissão em que os “nãos” costumam ser mais frequentes que os “sins”, cada aprovação ganha um significado especial.
“Você pode se preparar muito, gostar do personagem, fazer um teste do qual se orgulha e, ainda assim, não ser escolhido. Por isso, quando o ‘sim’ chega, é motivo de festa mesmo!”
Um dos processos que guarda com carinho foi o de “Bare — Uma Ópera Pop”, musical no qual interpretou Jason e que lhe rendeu uma indicação ao Prêmio DID de Ator Revelação em 2025. Não levou o troféu, mas considera a indicação uma conquista importante.
“Eu era um garoto que saiu do interior de São Paulo querendo correr atrás dos próprios sonhos e, de repente, estava vendo meu nome ser reconhecido como uma das revelações daquele ano”, relembra.

(Victor Galisteu em “Bare — Uma Ópera Pop”, musical no qual interpretou Jason e que lhe rendeu uma indicação ao Prêmio DID de Ator Revelação em 2025. Arquivo pessoal cedido ao Gazeta de Rio Preto)
Do teste gravado na pista de skate ao set da Netflix
A história de Nando Entre Dois Mundos começou, para Victor, longe de um grande estúdio. O primeiro teste foi gravado com a ajuda de amigos em uma pista de skate. Depois vieram outras três etapas presenciais em São Paulo até a confirmação no elenco.
“Foi muito especial acompanhar tudo aquilo desde o primeiro teste, feito com ajuda dos amigos, até ver o filme lançado e alcançando um público enorme. Depois da estreia, ele ficou por três semanas no Top 1 de filmes da plataforma e chegou também ao Top 1 global por alguns dias. É uma daquelas experiências que fazem a gente olhar para trás e pensar: ainda bem que eu gravei aquele teste”, afirmou.
O longa, dirigido por Johnny Araújo, reúne personagens e atores do universo de Sintonia. Christian Malheiros retorna como Nando, enquanto Duda Pimenta interpreta Bruninha, filha adolescente do protagonista. Jottapê e Bruna Mascarenhas também retomam seus personagens na produção. Victor descreve a experiência como uma espécie de aula intensiva.
“Conhecer todo o elenco e trabalhar ao lado de pessoas que já tinham uma trajetória muito maior do que a minha foi uma escola enorme.” Ele também se impressionou com a dimensão da produção. “Você passa a entender que um filme é realmente uma grande engrenagem, e que cada pessoa ali é fundamental para o resultado final.”
Para o ator, estar naquele ambiente trouxe uma confirmação pessoal: era exatamente onde queria estar. “Durante as gravações, eu vivi de perto muita coisa que, anos antes, eu tinha ajoelhado e pedido a Deus para um dia poder viver.”

(Cena de Victor Galisteu com Duda Pimenta em “Nando Entre Dois Mundos – Um Filme Sintonia”, na Netflix. Reprodução/ Netflix)
Outros trabalhos e novos caminhos
A experiência no audiovisual não começou nem terminou em Nando. Victor também integra o elenco de “Quinze Dias”, adaptação do livro de Vitor Martins dirigida por Daniel Lieff, que chegou à Netflix em 2026. O longa é protagonizado por Miguel Lallo e Diego Lira e também tem nomes como Débora Falabella no elenco.
Na televisão e no teatro, ele também vem acumulando experiências. Entre os trabalhos recentes está a novela vertical “Beijando o Irmão Errado”, disponível no DramaBox, na qual interpreta Bruno. Há ainda uma relação profissional que acompanha Victor desde 2018: a marca Chiquinho Sorvetes, para a qual voltou a gravar uma campanha recentemente.
A carreira, portanto, vai sendo construída em diferentes formatos — cinema, televisão, teatro, teatro musical, publicidade e produções digitais.
Adriane Galisteu e o encontro com o ator favorito
Victor também carrega uma curiosidade familiar que chama atenção. Ele é primo da apresentadora e atriz Adriane Galisteu, atualmente à frente de A Fazenda, da Record. A relação, porém, é distante.
“Nós somos primos, mas não a conheço. Meu bisavô é irmão do pai dela. Então, têm essa distância, nunca fomos próximos, mas o sobrenome tem a ver, sim”, explica.
Para além da coincidência familiar, Victor tenta construir o próprio caminho na profissão, e algumas das referências que escolheu para isso são gigantes. Entre os atores que admira estão Rodrigo Santoro, Ailton Graça e Wagner Moura.
Um encontro com Santoro, inclusive, virou uma daquelas histórias que o ator provavelmente vai carregar para sempre. Durante um ensaio para um musical, encontrou o artista em uma área de convivência. Criou coragem, aproximou-se e pediu um conselho.
Santoro sentou, conversou e o ouviu.
“Às vezes, a gente admira alguém pelo artista que ele é, mas, quando conhece um pouco da pessoa por trás daquele trabalho e percebe a generosidade e a humildade dela, a admiração cresce ainda mais.”
Com Ailton Graça, a experiência também foi de aprendizado.
“Ele foi extremamente gentil comigo e muito humilde. E uma coisa que me chamou muito a atenção foi observar o profissional que ele é. Mesmo sendo uma pessoa tão respeitada e com uma carreira tão consolidada, ele tinha um cuidado enorme com todos ao redor, pedia espaço para falar, respeitava a equipe e tratava todo mundo com muita educação. Foi uma aula observar isso de perto.”
Já Wagner Moura representa, para Victor, uma referência de carreira: um ator brasileiro que construiu uma trajetória sólida no país e também alcançou reconhecimento internacional.
“E tem também o Wagner Moura, que é uma das minhas maiores referências. Tive o privilégio de assistir a ‘O Agente Secreto’ em uma pré-estreia com ele presente. Eu não consegui falar com ele nem tirar uma foto, mas estar naquele ambiente, assistir ao filme e depois vê-lo dando entrevistas, acompanhando de perto a presença que ele tem como artista, foi muito inspirador para mim”, conta.
Ainda muito jovem, ele fala da carreira com a consciência de quem sabe que está no começo. Não se considera pronto. Pelo contrário. “Meu maior sonho é continuar evoluindo, como ator e como pessoa.”
Ele quer personagens mais complexos, projetos maiores e novas experiências. Sonha também com uma carreira internacional. Mas há algo que parece ainda mais importante do que chegar a algum lugar específico: continuar em movimento.
“No fundo, acho que o meu maior sonho é nunca me acomodar. É conseguir olhar para o Victor de ontem e sentir que o Victor de hoje aprendeu alguma coisa, cresceu e deu mais um passo. Quero estar sempre tentando ser melhor do que fui ontem.”
A frase combina com a trajetória até aqui.
O menino que fazia vídeos caseiros, jogava futsal no Monte Líbano, cresceu cercado pela família no Eldorado e descobriu o teatro quase por acaso agora olha para uma tela muito maior. Mas não parece ter esquecido de onde veio.
“Quero continuar trabalhando, conhecendo pessoas, assumindo novos desafios e construindo essa carreira passo a passo, sem desistir e sempre tentando chegar mais longe.”
E, por enquanto, o próximo capítulo já está sendo escrito.
“Daqui a dez anos, quero estar com saúde, cercado pelas pessoas que amo e poder olhar para trás com orgulho do caminho que construí. Quero continuar me desafiando, buscando personagens cada vez mais complexos, projetos maiores e experiências que me façam crescer.”
*Esta reportagem é de produção exclusiva da Gazeta de Rio Preto. É proibida a reprodução, total ou parcial, sem autorização expressa da autora ou sem a devida citação, nos termos da legislação de direitos autorais.
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