Política
“Não há imoralidade”, diz Edinho sobre nomeações na Jari
Entre nomeados no órgão responsável pela análise de recursos de trânsito estão o secretário de saúde, AldenisBorim, e o subprefeito de Talhado, Pedro Nímer (MDB), que, juntos, receberam mais de R$ 47 mil
Raphael Ferrari
O Ministério Público de Rio Preto deu prazo de 30 dias para que a Prefeitura preste esclarecimentos sobre as nomeações na Jari (Junta Administrativa de Recursos de Infração), vinculada a secretaria municipal de Trânsito. O pedido partiu do promotor Cláudio Santos de Moraes que aguarda as informações para determinar abertura ou não de inquérito.
Ao todo, são três juntas que formam a Jari na cidade. O órgão é o responsável por analisar contestações de motoristas que entram com recursos para invalidar multas aplicadas ou apontar erros na emissão dos autos de infração. A nomeação dos integrantes é de responsabilidade do prefeito Edinho Araújo (MDB), por meio de decreto.
Entre os nomeados, está Sérgio Pursino. Ele é tesoureiro do PR, partido comandado na cidade pelo vereador Fábio Marcondes, que recentemente fechou acordo com o governo para apoiar Edinho na Câmara em troca da indicação de aliados, justamente na secretaria de Trânsito.
Outro integrante é Jair Igor Gonçalves. Ele é assessor do vice-prefeito Eleuses Paiva (PSD), e até a última terça-feira, dia 31, atuava como chefe de gabinete do vice-prefeito, embora Eleuses tenha se afastado cargo para disputar as eleições deste ano. Ele é pré-candidato a deputado federal.
Igor pediu demissão do cargo após revelação de que compõe a Jari. Também integra a Jari o subprefeito de Talhado, Paulo Nimer Filho, presidente municipal do partido do prefeito, o MDB.
De acordo com dados do Portal da Transparência, Nimer recebeu R$ 35,6 mil para participar da Jari neste ano. Como subprefeito de Talhado, Nimertem ganho mensal de mais de R$ 6 mil. Também compõe a junta o secretário de Saúde, o médico AldenisBorim, que recebeu mais de R$ 12 mil este ano. O salário dele como secretário atinge quase R$ 13 mil.
O que chama atenção na denúncia recebida pelo MP é que todos os nomes têm ligações políticas. Entendimento do MP e do próprio Contram (Conselho Nacional de Trânsito) é que para fazer parte da junta seria necessário ter conhecimentos técnicos específicos sobre a legislaçãode trânsito – o que não seria o caso de Borim, Nimer e Pursino. Cada reunião dos membros para analisar os recursos gera um ganho extra de até R$ 500. Podem ocorrer até nove encontros por mês, o que poderia render R$ 4,5 mil a cada um.
Edinho mantém nomeados
O prefeito Edinho Araújo (MDB) falou sobre o assunto pela primeira vez na quarta-feira, dia 1º. O prefeito convocou coletiva no gabinete para anunciar a construção de 1,2 casas populares na região sul de Rio Preto. Questionado pela Gazeta de Rio Preto se acreditava haver imoralidade nas nomeações de pessoas políticas em cargos que são exigidos conhecimentos técnicos em trânsito, Edinho negou. “Não há imoralidade. O critério é sempre a seriedade, a competência e a honestidade”, afirmou. Sobre a possibilidade de alterações na composição da Jari, Edinho diz que os nomes serão mantidos. “A Jari tem mandato. Uma vez cumprido o mandato e tendo em vista a avaliação do secretário de Trânsito, eu analiso a conveniência de qualquer alteração”.
Motoristas revoltados
Nas ruas, a divulgação de que nomes ligados à política compõem a Jari causou indignação. “É um absurdo você querer comprovar uma falha quando recebe multa e quem analisa isso é gente da política”, diz Márcio Gonçalves. “Esse pessoal deveria ter vergonha na cara. Um secretário de Saúde receber para analisar recurso de multa é um crime. Tem que ser gente da área”, disse João Aparecido.
Para o comerciante Flávio do Amaral as nomeações na Jari revelam como funciona os bastidores da política. “Colocam gente ligada ao Edinho para poder pagar com dinheiro nosso os acordos da época da eleição. Vergonhoso”. Na representação enviada a Prefeitura o Ministério Público pediu dados sobre vencimentos de quem ocupa cargo público e está na Jari, e ainda valores recebidos nos últimos 12 meses. Na Câmara Municipal o vereador José Carlos Marinho (PSB) tenta a abertura de uma CEV (Comissão Especial de Vereadores) para apurar o assunto. Segundo o parlamentar existe a possibilidade até de pedir a anulação de todas as multas de trânsito aplicadas entre 2017 e 2018, período em que Edinho está no governo.
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