Cidades
Na ‘pele’ de Jesus
Atores contam sobre o desafio de interpretar o protagonista da tradicional encenação da Paixão de Cristo
Independente da religião, a história de Jesus exerce fascínio e gera até hoje inúmeras interpretações. Filmes, peças teatrais e até seriados já retrataram a história desse personagem histórico de diversas formas. Muitos até geraram polêmicas, como o longa-metragem “A Paixão de Cristo”, dirigido pelo ator Mel Gibson, que retrata sem qualquer sutileza as cenas de tortura e crucificação de Jesus, vivido pelo ator Jim Caviezel. O que chama a atenção é que maioria das obras se inspira na tradicional imagem de Jesus. Um homem de pele clara, longas madeixas e olhos claros.
O ator e morador de Bálsamo, Leonardo Henrique Sanches, de 25 anos, do grupo “Caminhada com Jesus”, que realiza uma das encenações da Paixão de Cristo mais aguardadas e tradicionais do Noroeste paulista, interpretou Jesus nas três últimas edições da megaprodução teatral. “Não tem como negar a responsabilidade que é interpretar Jesus. Enquanto carregava a cruz fiquei imaginando o tamanho da sua dor por causa de nós. Ele pagou uma dívida que não era dele, porque nós não podíamos pagá-la”, afirma o ator.
Sanches confessa ainda que, apesar de ser uma encenação, os ombros doíam ao carregar a cruz de madeira e que não conseguia escapar de todas as chicotadas que não eram para lhe atingir. Entretanto, a emoção de sentir na pele todo sofrimento de Jesus e os olhares lacrimejados do público, que o acompanhava passo a passo até o Calvário, não o deixavam perder o foco com as dores físicas. Na apresentação deste ano, ele vai interpretar o sumo sacerdote Nicodemos, que tenta defender Jesus diante dos outros sacerdotes. E é aí, já na escolha de um novo ator para ser o protagonista da encenação, que a 21ª edição da Encenação da Paixão de Cristo de Bálsamo já propõe de cara uma importante reflexão.
O metalúrgico Renan Alves Pereira, de 24 anos, foi o escolhido para interpretar um papel que talvez seja um dos mais marcantes de sua vida. O que mais chamará a atenção é a cor da pele do jovem. Será um negro que irá carregar, não apenas uma pesada cruz e todaresponsabilidade em ser o protagonista da tradicional encenação por algumas horas e longa caminhada, mas a personificação de toda uma raça crucificada até hoje, diariamente, pelo preconceito.
Ele terá a honra de recontar por meio de seus gestos e olhares a história dofilho de José e Maria que, segundo o próprio autor e quase unanimidade entre as religiões, é um exemplo de amor para a humanidade. Não será tarefanada fácil e o ator sabe bem disso.“Não nego minha ansiedade, mas estou preparado para o desafio. Afinal, fiquei feliz pela escolha porque foi indicação interna do próprio grupo”, afirma ele que, assim como todos os voluntários, participa de pelo menos dois ensaios semanais desde a primeira semana do ano. Pereira diz ainda que o seu principal objetivo, além de retratar com fidelidade a história do menino que nasceu em uma singela manjedoura em Belém, é conscientizar a plateia de que é preciso viver e refletir o verdadeiro sentido da Semana Santa em todas as semanas do ano. “No Domingo de Ramos Jesus foi recebido e aclamadocomo um rei e na mesma semana foi crucificado entre dois ladrões. Temos de refletir o que estamos fazendo e vamos fazer de nossas vidas. Devemos seguir os ensinamentos deixamos por ele”, se referindo as memoráveis palavras de Jesus: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento! Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.
O grupo “Caminhada com Jesus” aguarda um público de aproximadamente 5 mil pessoas para a encenação em Bálsamo, que será realizada na madrugada da Sexta-Feira Santa, dia 14, a partir das 3 horas, na Praça Matriz.
Inclusão e diversidade
O espetáculo Paixão de Cristo, realizado pelo Centro Cultural Vasco e pela Cia Fulano de Tal, será apresentado pelo 14º ano consecutivo nesta Sexta-feira Santa, dia 14, na Igreja Basílica, em Rio Preto, às 20 horas. No dia 15, a obra vai ser apresentada pela primeira vez fora de Rio Preto, em Ibirá, na Praça da Matriz, após a missa das 21h. Embora tradicional, a apresentação, com direção de João Paulo Rillo e Ricardo Matioli, traz novamente elementos especiais. Após colocar em cena o Papa Francisco, citado literalmente, representado pelo ator Harlen Félix, o espetáculo traz como novidade uma atriz cadeirante e uma futura mãe, com oito meses de gestação, as duas integrando o núcleo da Maria Madalena. Apresentações são gratuitas.
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