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Dez dias de Uber e menos de R$ 500 no bolso

Reportagem da Gazeta fez mais de 100 viagens com passageiros de Rio Preto e identificou problemas e vantagens do serviço; lucro médio por seis horas de trabalho foi de R$ 49

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Se trabalhar seis horas por dia durante 24 dias no mês (seis dias por semana), o motorista do Uber vai ganhar entre R$ 1,2 mil e 1,7 mil. Foi isso que a reportagem da Gazeta constatou após 10 dias transportando passageiros de Rio Preto por meio do app que tomou conta das principais cidades do mundo e ganhou espaço no Brasil nos últimos três anos. Esse valor estimado de lucro líquido não leva em conta, porém, passivos como manutenção do veículo, IPVA e seguro.

Sucesso entre os usuários, o aplicativo é alvo de protestos por parte de taxistas e mototaxistas, que viram a procura por seus serviços cair na ordem de 40% desde o início de fevereiro. Entre os motoristas, chamados pela empresa Uber de parceiros, a opinião está dividida. Neste sábado, dia 1º, o serviço completa dois meses de funcionamento na cidade. Proibido por lei municipal sancionada em 2015, o Uber será o tema de audiência pública na Câmara de Rio Preto (Leia reportagem no site da Gazeta).

Um motorista que aderiu ao aplicativo também confirmou a média de ganhos à Gazeta. Segundo ele, após um mês de trabalho sem folga, o ganho livre foi de R$ 1.750, equivalente a R$ 58,50 por dia. O motorista explicou ainda que a jornada diária foi de aproximadamente seis horas (a mesma feita pela reportagem da Gazeta) e resultou em 5 mil quilômetros rodados – 167 por dia. “Só trabalho com o Uber. A vantagem é que temos o dia a disposição, pois não temos compromisso com a Uber, podendo trabalhar quando queremos. Sinceramente, não vejo desvantagem nessa parceria”, afirma o motorista de 28 anos.

Em dez dias como motorista Uber, foram mais de 1,3 mil quilômetros rodados pela reportagem em 120 viagens que geraram faturamento de R$ 890, mas um lucro líquido de R$ 490 – equivalente a 55% do total. Trabalhando em média 6h por dia, o lucro foi de R$ 49 diários. Como ocorreu com muitos motoristas que aderiram ao sistema, foi necessário ampliar o pacote de dados do celular usado para operar o aplicativo Uber Driver, versão do app disponibilizada só para os motoristas e que precisa estar online o tempo todo para que seja feito o registro e o cálculo dos ganhos com as viagens. Esse gasto extra (R$ 45 mensais) não foi contabilizado na tabela disponível na versão impressa da Gazeta.

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No período em que a reportagem rodou por Rio Preto, deu para notar alguns dos problemas encontrados pelos motoristas. O pior deles são as viagens deficitárias. Elas ocorrem quando o passageiro está distante do motorista e é preciso dirigir até 15 quilômetros para chegar ao solicitante. Como a cobrança é feita apenas a partir do embarque, viagens curtas podem gerar prejuízo, uma vez que o gasto com o combustível supera o faturamento final. Esse tipo de viagem ocorre com maior frequência à tarde, quando os passageiros, para fugir do sol forte, solicitam um carro para se deslocar por distâncias inferiores a um quilômetro, a um custo médio de R$ 4 (R$ 3 para o motorista).

Por conta disso, a maioria dos motoristas rejeita viagens que levem mais de dez minutos até o local de embarque. Essa é a explicação para a constante falta de carros próximos aos bairros. A maioria dos 130 motoristas já cadastrados prefere permanecer na região central ou nas proximidades dos shoppings e do aeroporto, locais onde a demanda é normalmente maior.

Para evitar o consumo desnecessário de combustível, a estratégia dos motoristas é encostar o carro na primeira sombra encontrada após deixar o passageiro e esperar, com o motor desligado, a próxima chamada. A maioria só liga o ar-condicionado quando está com passageiro.

Tarifa dinâmica

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Quando a demanda em uma região da cidade está alta e há poucos motoristas por perto, o sistema automaticamente aumenta em 20% o valor da tarifa – é a chamada “tarifa dinâmica”. É uma estratégia para atrair carros para esses locais. Na maioria das vezes, porém, não vale a pena se deslocar, pois o aumento dura de 10 a 20 minutos. Em cidades como São Paulo, o aporte na tarifa pode chegar a 200%.
O verdadeiro “filão” para os motoristas são os grandes eventos, como o Bloco Pirraça, ocorrido no sábado, dia 25, no Recinto de Exposições. Nesse dia, a reportagem fez oito viagens para o local, todas com tarifa dinâmica.

Suporte

Semanalmente, sempre às sextas-feiras, um representante da multinacional recebe, em um hotel na área central da cidade, motoristas para tirar dúvidas e oferecer suporte técnico. Aos novos colaboradores ele promete assessoria jurídica e reembolso do valor das multas (R$ 2,7 mil), eventualmente aplicadas com base na lei municipal que proíbe o Uber. Existe ainda a promessa de pagamento do ganho médio pelos dias parados em caso de apreensão do veículo, mas nenhum documento é assinado.Há ainda, no próprio aplicativo, explicações sobre as dúvidas mais comuns e campos para fazer reclamações ou pedir esclarecimentos sobre cada uma das viagens.

Passageiros

O maior legado dessa experiência é, sem dúvida, a socialização com os passageiros. De todas as profissões, idades, classes sociais e níveis culturais, cada um traz histórias para contar. São tristezas, alegrias, dramas, sonhos, conquistas e desafios. Entre o universitário empolgado a caminho de um encontro amoroso e a filha que leva a mãe para a primeira sessão de quimioterapia há um intervalo de poucos minutos.

Como não se sensibilizar com o pai que, de olhos marejados, conta que viajou de ônibus de São Paulo a Rio Preto para passar três horas ao lado do filhinho de três anos antes de tomar o caminho de volta? Também é preciso estar pronto para opinar sobre futebol, política, economia e, por vezes, filosofia. Do bairro mais humilde, ao condomínio mais luxuoso, o dia passa sem que se dê conta. O lado ruim, foi a dor no tornozelo esquerdo provocada pelo esforço repetitivo após acionar o pedal da embreagem centenas de vezes em dez dias.

Hostilidade

Mas, diferentemente dos passageiros que vem e vão com suas histórias de vida, a apreensão e o receio são presenças permanentes durante o trabalho. Foram dois os episódios de hostilidade contra a reportagem. O primeiro, em frente a um shopping, ocorreu quando duas passageiras embarcaram, a 50 metros de um ponto de táxi. A rua de mão única obrigava a passagem em frente aos taxistas. Um dedo médio em riste e um xingamento foram as manifestações de um – dos quatro taxistas que estavam no local –, o mesmo que fotografou o carro no momento do embarque.

A informação apurada pela reportagem é de que um grupo de taxistas foi criado no Whatsapp para compartilhar imagens de motoristas do Uber. O segundo episódio ocorreu em frente à Câmara de Rio Preto, quando taxistas e mototaxistas protestavam contra o Uber. Enquanto a reportagem filmava o ato, um dos taxistas (o mais alto entre eles) se aproximou e rispidamente questionou: “De qual veículo de comunicação você é?”. Após a resposta, veio a explicação: “É que você se parece com um Uber que pegou passageiros na frente do nosso ponto”, explicou ele, ainda com olhar de desconfiança. Como resposta, um sorriso discreto.

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