Cidades
Casal de Rio Preto celebra o 1º Dia dos Pais após “barriga solidária”
Após anos de espera, casal de Rio Preto celebra o primeiro Dia dos Pais ao lado da filha Marina, gerada por gestação solidária realizada por uma amiga
Neste domingo (9/8), Dia dos Pais, a comemoração do procurador legislativo João Paulo Lefundes Coelho, de 40 anos, e do juiz federal do trabalho Marcel de Ávila Soares Marques, de 42, ganhou um significado que eles esperaram por muitos anos. Pela primeira vez, os dois celebram a data ao lado da filha Marina, vivendo uma rotina que antes existia apenas nos planos: o colo, as noites mal dormidas, os sorrisos inesperados e a descoberta diária de que o amor também se aprende na prática.
A família nasceu de um projeto de vida compartilhado, fortalecido pela amizade e por um gesto de generosidade que transformou para sempre a história dos três. Marina foi gerada por meio de gestação solidária, realizada pela doula e educadora perinatal Talita Miranda, de 39 anos, amiga do casal. Para garantir que Marina tivesse vínculo genético com a família, o casal recorreu à fertilização in vitro.
Para João Paulo e Marcel, a chegada da filha representa a concretização de um sonho, mas também simboliza a conquista de um espaço que ainda exige perseverança para muitos casais homoafetivos. Marina nasceu no Hospital da Criança e Maternidade (HCM) de Rio Preto.
“Ser pai representa a realização do maior sonho das nossas vidas. Para um casal homoafetivo, essa conquista tem um significado ainda mais profundo, porque o caminho até a parentalidade costuma ser mais longo, cheio de desafios, inseguranças e barreiras. Vivemos em uma sociedade em que muitos dos nossos direitos ainda dependem de decisões judiciais, e não de leis que garantam plenamente a igualdade”, afirmam.
Mesmo diante das dificuldades, eles dizem que nunca tiveram dúvidas sobre aquilo que realmente forma uma família.
“Nunca deixamos de acreditar que o amor é o que realmente constitui uma família. Ser pai é cuidar, proteger, ensinar, acolher e amar incondicionalmente. É acordar todos os dias sabendo que temos a responsabilidade e o privilégio de formar um ser humano. Nossa filha é a maior prova de que famílias são construídas pelo amor, independentemente da sua configuração.”

(Marcel segura Marina no colo no dia de seu nascimento, acompanhado de Talita e João Paulo. Foto: Larissa Acuna)
Uma amizade que deu origem a uma família
A história de Marina também é a história da amizade entre o casal e Talita Miranda. Doula desde 2013 e mãe de Teodoro, de 13 anos, e Lira, de 10, ela conta que sempre teve boas lembranças das próprias gestações. Quando soube que os amigos desejavam ter um filho, enxergou a possibilidade de ajudá-los.
“Minha família já estava completa, mas eu guardava uma enorme saudade da experiência de gestar. Em determinado momento, surgiu a oportunidade de ajudar o João Paulo e o Marcel a realizarem o sonho da paternidade, e esse desejo encontrou um propósito maior. Eles já faziam parte da minha rede de convivência. A decisão foi fácil, tamanha a admiração e o respeito que existiam entre nós”, relata.
Acostumada a acompanhar centenas de gestantes ao longo da carreira, Talita viveu, pela primeira vez, a experiência da gestação solidária. Segundo ela, todo o processo foi construído com diálogo e participação constante dos futuros pais.
“Foi uma gestação pleníssima. Cuidada e mimada como toda gestante merece ser, com direito a um pré-natal completíssimo, alimentação equilibrada, práticas integrativas e acompanhamento terapêutico. Os pais da Marina me acompanhavam em todas as consultas e exames, conversavam com a barriga, sinalizando o tempo todo que ela era aguardada.”
Cada etapa foi compartilhada.
“Nossa relação foi construída com muito diálogo, proximidade, transparência e respeito. Cada fase foi registrada com vídeos, fotos e troca de mensagens.” Depois do nascimento, o vínculo permaneceu.
“Nesses primeiros meses de vida da Marina, participei de reuniões familiares, eventos intimistas e passeios. É extremamente satisfatório testemunhar o zelo e o carinho que a cercam e que se refletem em seu comportamento alegre e calmo. Ela é apaixonada por seus dois pais. E eles tiram de letra os cuidados com ela”, conta a doula.

(Marcel, Talita e João Paulo aguardando a chegada da Marina. Foto: Larissa Acuna)
Ao olhar para Marina, o casal também lembra de quem tornou esse sonho possível. Eles dizem que a gratidão por Talita fará parte da história da filha.
“O gesto da Talita é algo que jamais conseguiremos traduzir completamente em palavras. Ela não apenas nos ajudou a realizar um sonho; ela fez parte da construção da nossa família de uma forma extremamente generosa e altruísta. Nossa filha sempre saberá que sua história começou cercada de amor, generosidade e pessoas que acreditaram na nossa família. A Talita ocupa um lugar muito especial em nossas vidas e sempre será lembrada com enorme respeito, carinho e gratidão.”
Para Talita, a experiência reforçou aquilo que aprendeu ao longo de anos acompanhando famílias.
“A gestação solidária precisa nascer de uma decisão extremamente consciente, livre e responsável. É fundamental compreender os aspectos médicos, jurídicos, emocionais e éticos envolvidos. Não se trata apenas de gerar um bebê, mas de contribuir para a formação de uma família. Pode ser uma das formas mais bonitas de solidariedade e amor ao próximo, mas não deve ser romantizada.”
Educar para que ela seja livre
Se hoje a rotina é marcada por mamadeiras, brinquedos e descobertas, João Paulo e Marcel já pensam no futuro da filha e nos valores que desejam transmitir.
“Queremos que ela cresça sabendo que pode ser exatamente quem desejar ser, sem limitações impostas por preconceitos ou estereótipos. Nosso maior objetivo é educá-la para que seja uma mulher forte, gentil, empática, honesta e segura de si. Queremos ensinar o valor do respeito às diferenças, da igualdade, da educação e da compaixão.”
Eles sonham em formar uma mulher capaz de transformar o mundo ao seu redor.
“Esperamos formar uma mulher que tenha coragem de defender aquilo em que acredita, que trate todas as pessoas com dignidade e que nunca duvide do próprio valor. Acima de tudo, queremos que ela cresça cercada de amor, porque acreditamos que o amor recebido dentro de casa é a base para que ela também faça a diferença no mundo.”
A presença como maior herança
Ao falarem sobre a própria infância, os dois reconhecem que carregam aprendizados diferentes de seus pais, mas compartilham a mesma convicção sobre o que desejam oferecer à filha.
“Como pais, buscamos estar presentes. Queremos participar das pequenas e grandes conquistas, ouvir, conversar, brincar, educar e oferecer um ambiente seguro, onde nossa filha sempre saiba que pode contar conosco.”
Para eles, a essência da paternidade está muito além dos laços biológicos.
“Mais do que impor regras, queremos construir uma relação baseada no diálogo, no respeito e no exemplo. Acreditamos que ser pai vai muito além do vínculo biológico: é estar presente todos os dias, oferecendo amor, proteção, incentivo e apoio incondicional. Esse é o legado que esperamos deixar para nossa filha”, concluíram.
Esta reportagem é exclusiva do jornal Gazeta de Rio Preto e de autoria da jornalista Karol Granchi. É proibida a reprodução, cópia, publicação, distribuição ou utilização total ou parcial deste conteúdo, por qualquer meio, sem autorização prévia e expressa da autora e do veículo. A reprodução não autorizada constitui violação aos direitos autorais, nos termos da Lei Federal nº 9.610/1998.
-
Cidades1 dia“Grande Envergadura II” mobiliza 172 PMs e prende nove pessoas em Rio Preto
-
Economia1 diaDia dos Pais especial na Expo Rio Preto tem show com Lourenço e Lourival
-
Cidades1 diaEx-aluno é flagrado com vodca próximo a escola e caso termina na polícia em Rio Preto
-
Cidades1 diaAposentado denuncia ameaça de morte após reclamar de som alto em Rio Preto
