Cidades
5 ANOS DEPOIS…
… as marcas do trágico acidente no Jardim Conceição vão desaparecendo do bairro, mas não da memória dos rio-pretenses
Um trem com mais de 50 vagões carregados com grãos de soja cruza na tarde de quinta-feira, dia 22 de novembro, o perímetro urbano de Rio Preto em direção ao porto de Santos. Próximo ao cruzamento com a rua Joana Anderi Chalela. O maquinista reduz a velocidade e aciona o alto apito sonoro, alertando aos pedestres e motoristas que a composição se aproxima. O trânsito de veículos para e todos aguardam impacientemente até que o último vagão passe. A vida volta a seguir, cada um com os compromissos diários. Diferente daquele domingo, dia 24 de novembro de 2013. O que seria mais uma travessia rotineira tornou-se uma das maiores tragédias ferroviárias do interior de São Paulo quando parte da composição saiu dos trilhos. Vagões, que transportam grãos, interromperam sonhos. Famílias foram dilaceradas. Oito pessoas morreram. Todas participavam de uma confraternização.
Quem passa hoje pelo local não vê mais as cenas de destruições, uma mistura de escombros de casas em meios aos ferros retorcidos dos vagões. Os dois imóveis invadidos pelos vagões há cinco anos não existem mais. São dois terrenos quase sem construção, com exceção aos portões. Em um deles, é possível notar que existiu o projeto de uma nova casa, mas foi abandonado. O segundo está à venda.
Muitas pessoas se mudaram após a tragédia. Novos moradores, mas velhas histórias. O barbeiro Cristiano Gomes Guimarães veio de São Paulo há três anos. Não presenciou o acidente, mas sabe detalhes devido a inúmeros relatos que ouviu de clientes.
“Já ouvi histórias de pessoas que presenciaram o acidente, que foram testemunhas oculares. E também daqueles que de uma forma ou outra estavam ligado aos fatos. Quando comecei aqui, presenciei filhos de clientes entrarem em pânico quando ouviam o trem se aproximando. Uma criança se encolheu e colocou as mãos na cabeça, como uma medida de proteção. Era nítido o medo dela”, conta.
A barbearia de Cristiano é vizinha de muro do imóvel que foi invadido. Por pouco, aquele espaço também não foi destruído pelos vagões. Questionado se tem receio de trabalhar próximo aos trilhos, ele diz que não.
“Hoje pelo menos 10 ou 12 composições passam durante o dia. Atualmente a reclamação é mais pelo barulho do que por receio de um novo acidente. Medidas foram tomadas após a tragédia e com frequência notamos funcionários da empresa responsável pela malha fazendo manutenção. Há menos de três meses eles trocaram parte dos dormentes”, afirma.
O empresário Luiz Antônio Oliveira, 63 anos, estava em casa no dia dos fatos e conta com detalhes os momentos após o descarrilamento. “Estava aquele clima de domingo a tarde quando de repente veio aquele estrondo muito forte. Começou a tremer tudo e quando saímos na rua, vimos aquela nuvem de poeira dos grãos e também dos escombros das casas destruídas. A carga dos vagões estava espalhada por toda a rua. Meu filho, imediatamente, junto com outras pessoas, correu para prestar socorro aos feridos. Trouxemos alguns feridos para dentro de casa até chegar o resgate. Foi bastante chocante”, conta.
Logo em seguida, chegam as primeiras viaturas do Corpo de Bombeiros, seguidas de ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Policiais militares e agentes da Guarda Civil Municipal (GCM) fizeram o isolamento da área.
Após a remoção dos feridos, iniciava o regaste dos corpos das vítimas. Um a um era retirado dos escombros e levados até os carros das funerárias que faziam filas em uma área próxima dos vagões retorcidos sobre as vias. Nas buscas de informações, familiares se desesperavam ao saber que pessoas ainda não tinham sido encontradas.
Horas depois veio a confirmação das vítimas fatais. No total, foram quatro mulheres, duas crianças e dois homens. Morreram na tragédia a dona de casa Graziela Joaquim dos Santos, 27, que estaria grávida de três meses, o filho dela Kauã dos Santos de Almeida, de seis anos, além da doméstica Paula Ramos Cardoso da Silva, 36, e a filha dela Amanda Cardoso da Silva, 16, a farmacêutica Denize da Cruz Flora, 33, Rafaela dos Santos Barcelos, dois, o auxiliar de serviços gerais Waldemar Dias da Silva, 41 anos e Francinaldo Félix Emiliano, 30 anos.
Divergências sobre as causas do acidente
Para a Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), o trem estava acima da velocidade permitida no trecho no momento do acidente. A composição estava a 44 km/h quando descarrilou, quando o correto seria 25 km/h. Laudos da perícia também apontavam que problemas na estrutura da malha ferroviária contribuíram para o descarrilamento.
Na defesa, a ALL também reiterou que “o trecho onde ocorreu o descarrilamento estava em condições adequadas de manutenção e segurança, apresentando nível superior ao exigido pela Agência Reguladora”.
A empresa também apresentou um laudo, realizado pelo Instituto de Criminalista e demais Órgãos Técnicos Especializados, que comprovaram que a causa do descarrilamento não se relacionou à velocidade da composição, mas sim ao colapso imprevisível do solo.
Investimentos milionários
A reportagem da Gazeta de Rio Preto entrou em contato com a assessoria da Rumo Logística, que atualmente administra o trecho da malha urbana de Rio Preto e questionou o quanto foi investido na segurança nos últimos anos. A Rumo afirmou por meio de nota que “somente no perímetro urbano de Rio Preto/SP foram aplicados até o ano passado mais de R$ 3 milhões em manutenção da via permanente. Também foram realizadas obras de drenagem, substituídos 1,6 mil metros de trilhos e 2,8 mil dormentes. Além disso, a empresa investiu mais R$ 1,5 milhão na revitalização de passagens em nível e passagens para pedestres. Também adquiriu material rodante mais modernos e seguros. São 82 locomotivas e 1.279 vagões novos que trafegam neste trecho. Estes investimentos possibilitaram a redução de 67% no índice de acidentes na região”, consta.
A empresa ressaltou ainda que “a concessão antecipada da Malha Paulista, que está em análise no Tribunal de Contas da União (TCU), vai impactar positivamente na vida dos moradores de São José do Rio Preto e região. O projeto é ambicioso, serão R$ 6 bilhões de investimentos e diversas intervenções no interior paulista visando aumentar a eficiência da operação e também a segurança das pessoas que moram no entorno da ferrovia. Entre as principais obras previstas, está a construção de uma variante ferroviária que irá retirar o trem do perímetro urbano do município e das cidades vizinhas de Mirassol e Cedral”, conclui.
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