Cidades
Major da PM de Rio Preto transforma cura do câncer em missão de vida
Após vencer a leucemia, Anderson Nunes criou campanha que incentiva doação de sangue e medula óssea
Em novembro de 2012, o então major da Polícia Militar Anderson Ferreira Nunes vivia um dos momentos mais intensos de sua carreira. Aos 43 anos, comandava a Agência de Inteligência da Polícia Militar na região de São José do Rio Preto, responsável pelo monitoramento do crime organizado.
Naquele período, ele havia participado das investigações que levaram à prisão dos integrantes de uma quadrilha envolvida nos assassinatos de um tenente-coronel da Aeronáutica e de um escrivão da Polícia Civil de Nova Granada. Após a captura do último integrante do grupo, em Mirassol, Anderson acreditava que voltaria à rotina normal de trabalho.
Mas, no dia seguinte, percebeu pequenas manchas vermelhas nas pernas. Procurou atendimento médico e recebeu uma notícia que mudaria sua vida para sempre: estava com leucemia. O tratamento durou seis meses.
Entre internações, medicamentos agressivos e o isolamento provocado pela baixa imunidade, ele passou a conviver diariamente com pacientes e familiares que enfrentavam a mesma batalha. Foi nesse período que nasceu uma nova missão.
“Eu vi o sofrimento de muitos doentes e familiares. Quando fiquei curado, senti que não podia simplesmente voltar à rotina e esquecer tudo aquilo que tinha presenciado”, lembra.
Uma dor que começou antes do próprio câncer
A luta contra a doença, porém, não foi a primeira grande batalha da vida do major. Anos antes, Anderson e a família enfrentaram um drama que marcou profundamente sua trajetória.
Seu filho caçula, Arthur, nasceu em abril de 2003 e, poucos dias depois, apresentou uma grave complicação intestinal. O problema interrompeu a circulação sanguínea em parte do órgão, exigindo uma cirurgia de emergência ainda nos primeiros dias de vida. A partir daquele momento, Arthur passou a depender de um transplante para sobreviver.
Na época, o procedimento não fazia parte da cobertura do Sistema Único de Saúde (SUS), e Anderson iniciou uma intensa mobilização para tentar salvar o filho. O caso ganhou repercussão nacional.
Em uma das situações mais marcantes daquele período, o policial discutiu ao vivo, durante uma entrevista na televisão, com o então ministro da Saúde, cobrando a autorização para o transplante.
A pressão da família, da imprensa e da sociedade gerou uma grande corrente de solidariedade. A autorização acabou sendo concedida, mas o desfecho não foi o esperado. Um órgão chegou a surgir para transplante, porém a doação não foi concretizada. Pouco tempo depois, Arthur sofreu uma grave infecção e morreu.
A perda deixou marcas profundas e ajudou a moldar o homem que, anos mais tarde, transformaria a própria dor em acolhimento para outras famílias.
A fé que transformou sua visão de mundo
Durante o tratamento da leucemia, Anderson viu sua rotina mudar radicalmente. Acostumado a viver sob pressão constante no combate ao crime, passou a conviver com a fragilidade da vida e a necessidade de desacelerar. Foi nesse período que se aproximou ainda mais da fé.
“Hoje eu agradeço por ter passado por esse amadurecimento. Aprendi que a nossa maior preciosidade é a saúde. Se você consegue levantar da cama e fazer aquilo que gosta, isso já é um milagre.”
Segundo ele, a doença o ensinou a valorizar coisas que antes passavam despercebidas.
“Hoje tudo é motivo de contemplação. A natureza, os animais, a vida. Esse Anderson de hoje é muito mais feliz do que o Anderson daquela época.”
O nascimento da Batalha pela Vida
Após a cura, Anderson percebeu que precisava fazer algo pelas pessoas que continuavam enfrentando a doença.
Durante o tratamento, observou que muitas pessoas deixavam de se cadastrar como doadoras de medula óssea por acreditarem em informações falsas. Uma das mais comuns era a ideia de que a doação exigiria uma agulha na medula espinhal.
“Existe muito mito. Muitas pessoas desconhecem que a doação pode ser feita por coleta no braço. A falta de informação afasta possíveis doadores.”
Foi dessa inquietação que nasceu a campanha Batalha pela Vida. Inicialmente pensada para o público interno da Polícia Militar, a iniciativa rapidamente ultrapassou os limites da corporação e ganhou as ruas. Ao seu lado estavam pessoas que ajudaram a transformar a ideia em realidade.
O major Rafael Helena colaborou na organização da campanha. O irmão de Anderson, Adanto Ferreira Nunes, foi responsável pela comunicação visual, criação de materiais gráficos, vídeos e estrutura digital. Já Wilson Silveira, que posteriormente faleceu em decorrência da Covid-19, participou das gravações e registros das ações.
Outro importante aliado foi o policial Fábio Uevara. Após assistir a uma palestra realizada por Anderson antes do lançamento oficial da campanha, em março de 2015, ele passou a percorrer igrejas e comunidades da região levando informações sobre doação de sangue e medula óssea.
O movimento cresceu rapidamente. Hoje, a Batalha pela Vida já realizou ações em mais de 40 municípios do interior paulista.
A história de Cristina que virou missão
Entre as muitas histórias acompanhadas ao longo dos anos, uma permanece viva na memória do major. Cristina Damasceno, uma adolescente de Mirassol, lutava contra a leucemia e precisava de um transplante de medula óssea.
Ela não conseguiu encontrar um doador compatível a tempo. Cristina morreu aos 17 anos sem ter a oportunidade de receber o tratamento que poderia salvar sua vida. A perda da jovem motivou Anderson a buscar mudanças para ampliar as chances de localização de doadores compatíveis e familiares que pudessem auxiliar nos processos de transplante.
A luta resultou em uma proposta legislativa voltada ao fortalecimento do acesso a informações do Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome). Para ele, a história de Cristina simboliza a urgência de ampliar o cadastro de doadores e combater a desinformação.
Levando esperança a quem recebe o diagnóstico
Além das campanhas de conscientização, Anderson passou a dedicar parte de sua rotina ao apoio emocional de pacientes em tratamento. Ele visita hospitais, conversa com famílias e compartilha sua própria experiência de cura.
A intenção é mostrar que o diagnóstico não representa uma sentença definitiva.
“Eu mostro que câncer não é sinônimo de morte. O paciente precisa de boas referências. Precisa saber que existem pessoas que passaram por isso e venceram.” O trabalho também avançou para a área educacional.
O primeiro curso sobre diagnóstico de câncer promovido pelo grupo reuniu cerca de 1.200 participantes. Uma segunda edição já está em fase de preparação.
O desafio da doação de sangue e do diagnóstico precoce
Atualmente, uma das principais bandeiras defendidas por Anderson é a implantação de um hemocentro móvel para atender Rio Preto e região. Segundo ele, o Hemocentro do Hospital de Base é responsável por abastecer 39 instituições de saúde e enfrenta diariamente o desafio de manter os estoques necessários.
“O sangue é uma matéria-prima que não pode ser comprada. Precisamos facilitar a vida do doador e levar o hemocentro até as pessoas.” Outra preocupação é o atraso na realização de exames.
Ele defende a criação de um centro municipal de diagnóstico de câncer para acelerar o atendimento e aumentar as chances de cura. “Quando uma pessoa espera meses por um exame, ela está perdendo tempo de vida. O diagnóstico precoce precisa ser tratado como prioridade.”
Uma vida dedicada à solidariedade
Hoje, aos 57 anos e aposentado da Polícia Militar, Anderson Nunes continua percorrendo cidades, participando de campanhas e incentivando a população a doar sangue, plaquetas e medula óssea. Para ele, a luta contra o câncer exige informação, prevenção e solidariedade. Sua mensagem é simples, mas carregada de significado:
“O câncer nos mostra que a vida é frágil, mas revela a força que temos quando agimos juntos.”
E nenhuma frase resume melhor sua trajetória do que aquela que costuma repetir ao falar sobre sua própria cura: “Eu fui irrigado pelo sangue de muitas pessoas boas. Esse amor que eu sinto hoje é resultado desse sangue que eu recebi.”
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