Saúde
As guerras aniquilam corpos e almas de mulheres e crianças
Artigo escrito pelo Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel
Guerras são destrutivas, guerras podem matar os combatentes por meio da ação desproporcional dos armamentos frente à fragilidade de um corpo humano. Todas estas observações parecem lógicas e óbvias. Mas o que muitas vezes pode passar sem grande repercussão é uma dura realidade: as guerras afetam a saúde das mulheres e das crianças. Alguns podem de imediato já estar pensando: claro que as guerras afetam a saúde das mulheres e das crianças, pois uma explosão de uma bomba ou o efeito catastrófico de um míssil podem destruir uma casa e matar as mães, avós, filhos e netos.
Mas seria este o ponto de vista a ser debatido? Não, a ideia a ser expressa nesta análise é que as guerras causam diversos efeitos indiretos na vida das mulheres e crianças, comprometendo principalmente a saúde delas.
Rússia e Ucrânia estão em plena guerra. A contabilização de mortos é grande, militares e civis. Mas volto a insistir: as mulheres e as crianças da Ucrânia já estão sofrendo e sofrerão ainda mais com os efeitos indiretos desta guerra.
Diante de mais um Dia Internacional da Mulher, este cenário de guerra atual no leste europeu levanta uma questão crucial: a mulher não deve ser exaltada somente pelos motivos corriqueiros -ser mãe, empresária, esposa, dona de casa. A mulher exerce um papel imensamente maior do que isto, principalmente quando ela é colocada à prova, como num estado de guerra.
O poder do instinto materno é tão significativo que as mães separam-se de seus filhos para proteção destes últimos. Sabendo que a qualquer hora uma bomba pode explodir, um ataque frontal pode acontecer ou um míssil pode atingir, as mães preferem ficar na linha de frente e deixar seus filhos em outra condição supostamente mais segura.
Esta separação forçada resulta num sentimento de angústia e apreensão e um pensamento avassalador: pode ser que estas mulheres não vejam e não reencontrem mais seus filhos. Aprofundando este abismo de dor e sofrimento maternal, muitas mulheres podem estar grávidas, outras podem estar amamentando seus bebês e outras sendo pai e mãe ao mesmo tempo. Como fica a situação destas mulheres, distantes de seus filhos, abdicando da função maternal para serem anteparos dos projéteis e escudos humanos contra bombas?
O aspecto emocional de muitas crianças fica destroçado, diante do “sumiço” das mães, os bebês podem enfrentar precocemente a desnutrição pela falta do leite materno como também pela ausência daquela pessoa que participa de outra guerra diária e não sangrenta: trabalhar horas e horas para trazer pão para casa.
Aqueles que planejam e executam uma guerra são pessoas que impressionam pela frieza, maldade e egoísmo. Quando pensamos que estas pessoas respeitam minimamente limites, elas podem extrapolar, como no caso de diversas guerras pautadas por um princípio estarrecedor: a dizimação da espécie humana.
Em outras palavras, estas guerras visam objetivamente matar as mulheres, estando elas grávidas ou não, pelo simples fato de dizimar gerações de pessoas de uma determinada aldeia, região ou topografia.
Durante a Segunda Guerra Mundial, nos deparamos com outra demonstração de ataque a mulheres e crianças: o famigerado Holocausto. Este fato jamais poderá ser esquecido tendo em vista que mais de 1 milhão de crianças e mais de 2 milhões de mulheres foram mortas por um estado nazista que se autodenominava superior a tudo.
Muitos filmes e séries retratam o reencontro de mães e filhos décadas após o término da Segunda Guerra, todos vítimas do Holocausto, quando já não havia mais esperanças ou qualquer sentimento de familiaridade entre as pessoas.
As guerras são destrutivas não somente pelo distanciamento físico entre as mulheres e as crianças. Mesmo que permaneçam juntas, estas pessoas enfrentarão condições de subsistência extremamente precárias. Faltam alimentos nas prateleiras, as lavouras não são poupadas, as águas são contaminadas por produtos tóxicos, os animais morrem precocemente e faltam medicamentos.
Além disto, a infraestrutura urbana torna-se completamente incompatível: o espaço aéreo fechado, as estradas que poderiam dar acesso aos grandes centros urbanos e aos hospitais viram pó e qualquer tipo de suporte logístico torna-se inexistente.
No caso da guerra entre Rússia e Ucrânia, uma maternidade na Ucrânia foi alvo dos ataques! Vocês conseguem imaginar a dimensão da frieza de quem faz isto e a dimensão do sofrimento dos pais e das próprias crianças diante de uma bomba? Basta pensar nisto que já bate aquela sensação de raiva e ao mesmo de tempo de profunda emoção. Uma tamanha covardia!
Para os irresponsáveis autores de guerras, a percepção acerca das consequências físicas e mentais para todos os envolvidos, direta e indiretamente, deveria ser motivo de um pesadelo contínuo. Desnutrição, doenças infecciosas, doenças crônicas e saúde mental debilitada serão traços na vida dos sobreviventes, especialmente as mulheres e as crianças.
Uma guerra indubitavelmente é um convite para vivenciar tristezas, decepções, mortes, fragmentação de famílias e impacto inexorável em relação a saúde humana. Historicamente, as mulheres e as crianças tornam-se não somente alvos das armas como também dos efeitos indiretos da separação física, da infraestrutura precária, da doentia dizimação da espécie humana e das sequelas físicas e emocionais.
As guerras matam corpos e almas de pessoas como mulheres e crianças, que normalmente permanecem na retaguarda, sem tanto contato direto com sangue derramado, mas intimamente próximas do caos, do medo, da fome e da incerteza quanto ao futuro e quanto aos sonhos almejados.
Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel. Cardiologista com especialização em Cirurgia Cardiovascular, orientador de Nutrologia e Longevidade e coordenador da Faculdade de Medicina da Unilago.
-
Política2 diasANAC aponta exigências para internacionalização definitiva do aeroporto de Rio Preto
-
Cidades4 horasMotorista de aplicativo é morto em Rio Preto; adolescente é apreendido
-
Cidades2 diasPM divulga vídeo de perseguição a motociclista em bairros de Rio Preto
-
Cidades1 diaPassageiro acusa motorista de app de fugir com compras em Rio Preto
