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Comunhão de ódios
Artigo escrito por Roberto Lima
A sessão de cassação do deputado Eduardo Cunha foi tão ou mais dantesca que a que votou o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Inferno de Dante talvez se ache algum tom de benevolência ou nuança de humanidade. Especialmente na sessão de cassação de Cunha, não. Tudo ali foi seco, árido, estridente, ruidoso, faca na caveira, sangue nos olhos, abutres com a carne na goela, o sabor ácido da vingança no paladar do estranho ser humano apto à política. Não defendo Cunha. Menos ainda Dilma. Cada qual sabe seus males, ais, azares, mazelas e culpas; os processos contra eles foram sobejamente embasados, as punições, portanto, justas. O que defendo é o respeito à humanidade, e o exercício urgente de uma política decente, respeitosa e ética. Os 450 x 10 votos pelo Fora Cunha foram a paga de um tempo nefasto, de praticas ilícitas de bastidores, porões. Essa é a devida recompensa do corrupto; o que não consigo entender é o prazer que existe em chutar cachorro morto. As ofensas, os xingamentos, o desprezo, a incivilidade e nível de agressividade dos nobres parlamentares fazem corar vikings e piratas. Uma verborragia insuportável frente às câmeras e eleitores; os cinco minutos de fama em escárnios à vítima e criminoso da vez. Completamente certa é a afirmação de Voltaire: “a política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano”. Com certeza que sim. Não consigo avistar sequer um vestígio de enlevo de espirito naqueles discursos raivosos, dilacerantes, ofensivos. O pior do pior toma conta do ser. Fazem-se piores e mais denegridos que o réu. Vilipendiam com tamanha crueldade, vestem-se de uma carapaça de justiça que muito deixa a desejar. Santos não são, que sejam, ao menos, mais polidos e decentes no trato. Que assumam seus delicados e frágeis telhados de vidros. Coisa triste é a tal política, penso que não só no Brasil, mas em qualquer lugar do planeta. O grande Winston Curchill confirmou uma triste seara para quem é do ramo. Disse ele: “A política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes.” É exatamente isso, a cada ocupação do front político, há os abatidos e os vencedores. No próximo front estarão em posições opostas e a lição de nada lhes valerá. Serão ainda mais cruéis, arrogantes, falsos e insidiosos. Na sessão de cassação de Eduardo Cunha, uma das deputadas que ocupou a tribuna vociferou: “onde estão seus amigos, Sr. Deputado? Onde estão hoje seus amigos que não lhe ajudam?” Lembrei de um historiador francês, Alexis Tocqueville, que ainda no século 18 conseguiu avistar os amigos de Cunha, de Dilma e, muito provavelmente, os de Lula também. Escreveu ele: “Em política, a comunhão de ódios é quase sempre a base das amizades”.
Roberto Lima Filho
Doutor em Ortodontia pela UFRJ
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