Cidades
Uber coloca 100 motoristas nas ruas de Rio Preto
Gazeta testou o serviço e constatou que o mesmo trajeto custa praticamente a metade do preço cobrado por taxista; profissional reclamou de concorrência desleal
Rio Preto tem nesta quarta-feira, primeiro dia de oferta do serviço de transporte remunerado por meio do Uber, pelo menos 100 motoristas habilitados para transportar passageiros que baixaram o aplicativo. Ao mesmo tempo, o secretário de Trânsito e Segurança da cidade, Marcos Apóstolo, reforçou que o município vai fiscalizar e multar motoristas flagrados atendendo passageiros usuários do app.
“Existe uma lei que proíbe o transporte particular de passageiros sem o devido alvará e contamos com o apoio da Polícia Militar para identificar, notificar e multar esses motoristas”, disse o secretário.
A lei que proíbe o atendimento a passageiros por meio do Uber foi sancionada em 2015 e prevê multa de 50 UFMs (Unidades Fiscais do Município) – o que equivale atualmente a R$ 2,7 mil – ao motorista que for flagrado transportando usuário do aplicativo.
Questionado sobre a possibilidade de criar algum tipo de cadastro para regularizar a situação dos motoristas do Uber, Apóstolo afirmou que “não acredita que haverá interesse dos motoristas”. “Nem a empresa (Uber), nem os motoristas têm interesse em se regularizar. Já procuramos o Uber e eles não tem demonstrado vontade alguma de regularizar a situação”.
O teste
A equipe da Gazeta fez, na tarde desta quarta, o mesmo percurso – entre a sede do jornal no bairro Redentora e o aeroporto de Rio Preto – primeiro acionando um motorista do Uber para ir da redação ao terminal e a volta foi em um taxi. O trajeto tem R$ 3,5 quilômetros.
Viagem de Uber
Assim que o carro do Uber foi chamado, a informação do aplicativo era de que o motorista chegaria ao local em três minutos, mas a espera levou um pouco mais (12 minutos). Quando o carro já estava próximo ao local do chamado, um aviso foi enviado para o celular alertando para a chegada do veículo. É possível acompanhar todo o percurso por um mapa (em sistema GPS) exibido pelo próprio aplicativo.
O app informa, antes mesmo de o carro chegar, a placa, o modelo, o nome do motorista e exibe uma foto do profissional. A equipe de reportagem (repórter e repórter fotográfico) foi bem recebida por um motorista bem vestido (calça jeans e camisa) em um automóvel Volkswagen Fox novo, limpo e com aparelho de ar-condicionado refrigerando o suficiente para o calor característico da cidade.
Cordial, o motorista pediu desculpas pelo atraso e gentilmente explicou como afastar o banco do passageiro. Ao saber que tratava-se de uma reportagem, pediu para não ser identificado no texto, alegando ter sido orientado pela empresa Uber a evitar contato com a imprensa.
A viagem durou 15 minutos e o desembarque aconteceu tranquilamente bem em frente ao terminal, na alça de acesso ao aeroporto, sem nenhuma manifestação dos taxistas que atuam no local. No celular constou, no entanto, que o tempo de viagem havia sido de 12min e 55seg. O valor pago foi de R$ 9,25, que serão lançados em fatura de cartão de crédito.
O motorista disse à reportagem, durante o percurso, que pelo menos 100 motoristas foram cadastrados pela empresa Uber e participaram de três reuniões, a última delas realizada na terça-feira, 30, na sala de convenções do Ipê Park Hotel. Na ocasião foram passadas orientações sobre a manutenção do veículo, formas de pagamento e as rotinas de trabalho. Todos já estão habilitados para prestar o serviço.
Viagem de taxi
Na volta para a redação, à equipe da Gazeta procurou um taxi. O primeiro consultado não estava com a máquina de cartão funcionando e, por isso, o embarque ocorreu no segundo veículo da fila. Ao saber do tema da reportagem, o motorista, Elvídio Dianni, começou logo a se posicionar sobre o assunto.
O carro, um Chevrolet Spin 2014 com todos os adicionais, estava limpo e o motorista, elegantemente trajado (calça social e camisa), foi muito simpático com a equipe. Como o ponto de taxi do aeroporto fica exposto ao sol no período da tarde, Danini tratou logo de ligar o ar-condicionado, que refrigerou o suficiente para uma viagem confortável. Ele também orientou sobre como afastar o banco.
Não houve espera, uma vez que o ponto fica em frente ao aeroporto e o carro já estava estacionado no local. O taxímetro, que estava na chamada “bandeira 1”, – que indica o período diurno – marcava R$ 5,40 no momento do embarque. A viagem levou 13 minutos e o valor somado no final do percurso era de R$ 18. Em termos de conforto, é possível afirmar que ambas as viagens foram equivalentes.
Uber visto pelo motorista
O motorista que levou a equipe da Gazeta até o aeroporto explicou que a empresa fará os pagamentos aos motoristas semanalmente, por meio de depósito em conta bancária, e que a expectativa de ganho líquido para os profissionais, segundo a empresa, é de até R$ 1,2 mil por semana.
“Esse valor foi estimado com base no que estão ganhando os motoristas que já atuam em Ribeirão Preto (cidade com população um pouco maior que a de Rio Preto – 674 mil habitantes ante R$ 447 mil). Lógico que, para isso, temos de trabalhar de oito a dez horas por dia, seis dias por semana”, explicou.
O motorista afirmou ainda que ele e os colegas foram orientados a registrarem-se como MEI (Microempreendedor Individual), junto à Receita Federal, para poderem ter direitos trabalhistas como Licença Saúde e recolhimento ao INSS.
Ele afirma que a maior vantagem encontrada por ele é a liberdade de cumprir os horários que julgar melhor, sem necessidade de obedecer uma rotina diária obrigatória.
Aos 55 anos, ele conta que é rio-pretense, mas trabalhou como mestre de obras em São Paulo por 35 anos e voltou para a cidade logo após aposentar-se. “É uma forma de não ficar parado e de ter um ganho extra”, explicou.
De tudo que ele recebe pelas viagens, uma parcela de 25% vai para a multinacional controladora do Uber e os 75% restantes ficam com ele, que também é responsável por custear o combustível e a manutenção do veículo.
Questionado sobre a lei municipal que prevê multa para os motoristas flagrados prestando o serviço, ele disse que a empresa prometeu oferecer assessoria jurídica para atendê-lo em caso de autuações e que o Uber vai pagar pelos dias eventualmente parados, caso o carro seja apreendido. “Isso deixa a gente mais tranquilo para trabalhar.”
Uber visto por um taxista
“No Brasil de quando eu era menino, havia amor, ordem e progresso. Depois passou apenas para ordem e progresso. Com essa crise, o progresso acabou e agora estão querendo acabar com a ordem.” Assim o taxista de 80 anos de vida e 61 de profissão Elvídio Dianni introduziu a conversa sobre o Uber.
Ele ressaltou que os taxistas, antes de conseguirem alvará, precisam apresentar extensa documentação que inclui antecedentes criminais e habilitação devidamente atualizada. Disse ainda que, só para manter o alvará atualizado, gasta cerca de R$ 500 anuais. “Viajar com um taxistas devidamente registrado é sempre mais seguro”.
“Esse Uber é uma empresa estrangeira (multinacional norte-americana) que entra no nosso país sem respeitar as nossas leis. Aqui é proibido transportar pessoas sem a devida regulamentação. Se fizéssemos o mesmo no país deles, iríamos parar na cadeia”, disse.
Segundo ele, que presidiu por 12 anos o sindicato da categoria, Rio Preto tem hoje 225 taxistas registrados e 110 motoristas comissionados (motoristas que dirigem carros dos permissionários em horários alternativos). “Muitos desses comissionados começarão a perder seus empregos e, aqueles que tiverem condições de comprar um carro, serão obrigados a migrar para o Uber”.
No entendimento de Dianni, o Uber utiliza-se do esquema de “pirâmide” para atrair novos motoristas. “Com o tempo, muitos vão ver que não compensa, pois os gastos e investimentos são todos deles. Neste momento, muitos vão deixar de trabalhar para eles (Uber), mas sempre haverá outros precisando se sustentar que vão procurá-los”.
Ele relata, no entanto, que não observou queda no movimento de passageiros em seu taxi no primeiro dia de atuação do Uber em Rio Preto.
Sobre o teste
A Gazeta não teve a pretensão de qualificar nenhum dos dois serviços de transporte privado com essa reportagem. O intuito é apenas mostrar ao leitor as diferenças e semelhanças entre as duas opções.
Fiscalização
A Prefeitura de Rio Preto informou que nenhuma multa a motoristas do Uber foi aplicada até as 18h30 desta quarta-feira pelo setor de fiscalização. Os trabalhos seguiriam até as 19h. “É muito difícil flagrar esse tipo de transporte, pois não há caracterização nos carros e nós não podemos simplesmente acionar o serviço para localizar os motoristas. Isso seria como forjar as provas, o que é ilegal. Quem é motorista do Uber não fala que é. Teríamos de apreender os celulares deles para comprovar se usam a versão para motoristas do aplicativo”, explicou o secretário de Trânsito de Rio Preto, Marcos Apóstolo. (Colaborou Alex Pelicer)
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