Cidades
Manifestações locais contra feminicídios devem marcar Dia Internacional das Mulheres
Em Rio Preto, no ano passado, 11 mulheres foram assassinadas, deste total seis foram feminicídios
Alex Pelicer
A violência, travestida de amor doentio, resultou na morte de seis mulheres em Rio Preto de julho do ano passado a janeiro deste ano. Para alertar o público feminino sobre o problema da violência, órgãos e entidades vão promover palestras motivacionais e ação contra o feminicídio nesta sexta-feira, dia 8 de março, data que é comemorada o ‘Dia Internacional da Mulher’.
Os números comprovam que ser mulher no Brasil é, em si, uma condição de risco. Segundo o Atlas da Violência (IPEA), a cada 2 horas, em média, uma brasileira é morta simplesmente por ser mulher. Em 2016, 4.645 mulheres foram assassinadas no país, e, em 33 anos, mais de 100 mil brasileiras foram mortas por esse tipo de crime.
“Aqui em Rio Preto, sabemos que do ano passado para cá, um período de 14 meses, 11 mulheres foram vítimas de feminicídio; um número cinco vezes maior que no ano anterior”, alerta a presidenta do Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres (CMDM) de Rio Preto, Monica Abrantes Galindo.
“Por essa razão entendemos que não podemos nos calar, mas chamar todos os setores da sociedade a pensarem e discutir esse assunto conosco”.
Em cinco meses, o Hospital de Base, perdeu duas colaboradoras, vítimas de feminicídio. Em agosto do ano passado, a técnica em enfermagem Ana Cláudia Santos de Oliveira, de 27 anos, foi morta com cinco tiros pelo ex-companheiro.
A vítima retornava do trabalho quando foi surpreendida na frente da casa dela. Ela tentou fugir, mas foi segurada pelo ex-namorado, que não aceitava o fim do relacionamento de dois anos e oito meses.
Outro caso
Em janeiro deste ano, a enfermeira Juliana Ladim Simão, de 37 anos, foi brutalmente assassinada pelo marido que não aceitava a separação do casal. A mulher tinha sinais de estrangulamento, além de as mãos e os pés amarrados e a boca amordaçada. As mortes fizeram os funcionários do HB trocar o tradicional branco por vestes pretas em um ato que reuniu 300 pessoas no final de janeiro. A partir do ato, campanhas internas foram criadas no intuito das mulheres vítimas de violência denunciar os agressores.
“Após nossa primeira manifestação, notamos que tinha vários outros casos de violência contra nossas colaboradoras. Um dia após nosso ato, quatro funcionárias nos procuraram relatando violência. Ficamos surpresas ao ouvir as histórias. Não são agressões de curto prazo, é algo que vinha se arrastando por anos”, explica a diretora administrativa do HB, Amália Tieco.
As agressões antes de se tornarem físicas, muitas vezes são psicológicas, o que afeta diretamente a autoestima da mulher.
“Nossa campanha para comemorar o ‘Dia Internacional da Mulher’ foi intitulada “Ninguém bate em Mulher Maravilha”, além de representar a emblemática personagem dos quadrinhos a Fundação irá promover maquiagem express, aula de axé, automassagem, palestras motivacionais, para reforçar a autoestima”, afirma Amália.
Para a delegada da Delegacia de Defesa da Mulher, Dalice Ceron, ações promovidas pelo HB são positivas e abre um canal para denúncia dos agressores. “Essas ações induzem a mulher a uma maior reflexão quanto as violências sofridas, que na verdade em razão desta cultura machista, o homem entende que é normal agredir, não só fisicamente, mas sim psicologicamente, moralmente. Mas isso é fruto do aprendizado, muitos homens têm o pai como referência, enquanto a mulher foi educada para tolerar. A partir do momento que surgem esses movimentos, a mulher passa a se questionar”, diz.
Ainda de acordo com a delegada, ações de conscientização podem ser uma forma dos agressores refletirem. “É importante para o homem conscientizar-se, por que muitos não têm noção do mal que está acarretando, da ilicitude de sua conduta. Por isso que se estuda um atendimento também para o agressor, visando coibir este tipo de conduta no lar. As maiores vítimas, além das mulheres, são as crianças. Pois elas vão reproduzir o que vivenciam, ou seja, menino tende torna-se agressor e a menina tolerar a violência. E isso não podemos aceitar jamais” conclui.
Protesto silencioso
Além do Hospital de Base, a Secretaria dos Direitos e Políticas para Mulheres, Pessoa com Deficiência, Raça e Etnia, por meio do Conselho Municipal de Defesa da Mulher (CMDM), celebra a data com a campanha ‘8 de Março contra o Feminicídio – Vista-se de Preto!’. A proposta é que, como adiantado pelo enunciado do evento, toda a sociedade rio-pretense participe de um protesto silencioso e provocativo, a fim de discutir o grave problema da violência contra a mulher.
A pasta também promoverá diversas ações que contemplem a questão da mulher na sociedade ao longo da próxima semana.
A programação pelo Dia Internacional da Mulher inclui a tradicional recepção às servidoras públicas municipais, a partir das 7h30, nesta sexta-feira, dia 8, no Paço Municipal, pelo prefeito Edinho Araújo, pela primeira-dama e presidente do Fundo Social de Solidariedade, Maria Elza Araújo, e pela secretária Maureen Leão Cury.
“Certamente, nós vamos endossar esse alerta quanto à segurança da vida das mulheres. Recentemente, alcançamos uma importante e antiga reivindicação que é a instalação do Anexo de Violência Doméstica. Nesse sentido, vamos continuar avançando e somando forças para proteger e dar suporte às mulheres vítimas de violência”, declara o prefeito Edinho Araújo.
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