Cidades
Caso Amanda: “A dependência não define quem somos”, explica especialista
Em entrevista à Gazeta de Rio Preto, irmã da vítima relembra infância, recaídas e relação com os três filhos, enquanto especialista analisa a dependência química
“Se já foi preso e confessou, pelo menos fale a verdade!”. A frase é de Ingrid Caroline da Silva, de 27 anos, irmã de Amanda da Silva, de 30, vítima do homicídio e esquartejamento que chocou Rio Preto e região. Em entrevista à Gazeta de Rio Preto, Ingrid questionou a versão apresentada pelo homem preso pelo crime e pediu esclarecimentos sobre o que realmente aconteceu com a irmã.
Moradora de Guaíra, a 135 km de São José do Rio Preto, Ingrid conta que a família é originária da Grande São Paulo. Amanda nasceu em Jandira, em 13 de fevereiro de 1996, e era uma das cinco filhas da família: Ingrid, Sabrina, Alex, Alessandra e Amanda.
Na época do nascimento de Amanda, a mãe enfrentava dificuldades financeiras. O pai dela havia morrido e também enfrentava problemas relacionados à dependência química. Diante da situação, a tia, Odete, passou a criar Amanda como filha, ao lado de Karim, prima que atualmente mora no Solo Sagrado e que cuidava dos três filhos de Amanda.
Para a irmã, porém, a história de Amanda não pode ser resumida à dependência química. Ela descreve a vítima como uma mulher carinhosa, vaidosa, alegre e sem maldade.
“Era uma menina muito amorosa, muito carinhosa e não via maldade nas pessoas. Era vaidosa, gostava de se arrumar, de usar brincos. Tinha os cabelos raspados nas laterais, mas sempre gostou de se arrumar. Era muito alegre, era o jeitinho dela”, contou Ingrid.

(Arquivo pessoal)
Amanda era também ligada à fé. Segundo a família, gostava de cantar na igreja e recebia cuidados de Karim, que a acompanhava em consultas médicas e atividades religiosas.
“A Karim cuidava muito bem dela, levava ela ao médico e na Igreja. Amanda gostava de cantar na igreja…Mas ela tinha as recaídas, ficava mal e sempre pedia perdão por ter recaído”, relatou a irmã.
Amanda começou a enfrentar problemas relacionados à dependência química aos 13 anos. Foram cerca de 17 anos marcados por tratamentos, períodos de recuperação e recaídas. Ela chegou a ser internada duas vezes, inclusive em uma clínica de Limeira, mas, segundo Ingrid, voltava a usar drogas pouco tempo depois de deixar os tratamentos.
A situação teria se agravado após a morte de dona Odete, que sofria de diabetes e teve papel importante na criação de Amanda.

(Amanda comemora com os irmãos. Foto: arquivo pessoal)
Dependência química não resume a história de Amanda
A trajetória de Amanda também é analisada pelo psicólogo Pedro Silva Gonçalves, especialista em dependência química em Rio Preto. Segundo ele, a relação com as drogas pode fazer com que a busca pela substância passe a ocupar um espaço cada vez maior na rotina, sem que isso signifique ausência de amor pela família ou de outros desejos e projetos pessoais.
“A dependência química pode fazer com que a busca pela substância passe a ocupar um lugar central na vida da pessoa, muitas vezes se sobrepondo a necessidades básicas, vínculos familiares e até à própria segurança. Isso não significa que ela não amasse os filhos ou não tivesse sonhos. A dependência é uma doença que altera o comportamento e a capacidade de decisão, especialmente em situações de uso intenso. Por isso, precisamos olhar para essas pessoas com compreensão, sem deixar de reconhecer a necessidade de tratamento.”
Para o especialista, o desenvolvimento da dependência química não pode ser atribuído a um único fator. O quadro pode estar relacionado a uma combinação de aspectos biológicos, psicológicos e sociais.
“Não existe uma única causa. A dependência química é resultado da combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Algumas pessoas carregam traumas, perdas, sofrimento emocional ou vivem em ambientes de grande vulnerabilidade; outras possuem maior predisposição biológica. A substância, com o tempo, modifica o funcionamento do cérebro e pode transformar um uso inicialmente ocasional em uma necessidade difícil de controlar.”
Apesar das dificuldades, a família afirma que Amanda mantinha uma preocupação constante com os três filhos, atualmente com 4, 5 e 7 anos.
“Mesmo quando ela ficava sem celular, ela dava um jeito de entrar em contato para saber dos filhos. Ela não morava na rua, ela tinha casa e família. Mas, às vezes ela sumia… Os conhecidos a viam na rua e tiravam fotos dela para mandar para minha prima saber como ela estava”, afirmou Ingrid.

(Arquivo pessoal)
Uma amiga de Amanda, Nathália Honorato, também relembrou a vítima em uma publicação nas redes sociais. Segundo ela, Amanda enfrentava traumas, mas não carregava maldade e tinha um “coração incrível”. As duas frequentavam a mesma igreja e estudavam juntas.
Acolhimento e tratamento
Para o psicólogo, a maneira como a sociedade encara pessoas que enfrentam a dependência química também pode influenciar a possibilidade de busca por ajuda. Na avaliação do especialista, o enfrentamento precisa envolver prevenção, tratamento, assistência e acolhimento.
“Precisamos trocar o julgamento pela prevenção, acolhimento e acesso ao tratamento. Dependência química não se resolve apenas com força de vontade ou punição. Precisamos fortalecer as políticas públicas, os serviços de saúde, as comunidades terapêuticas que atuam de forma adequada, a assistência social e, principalmente, ações de prevenção. Quando a sociedade enxerga o dependente apenas como um problema, perde a oportunidade de enxergar a pessoa que existe por trás da dependência.”
Como a família pode ajudar
O especialista ainda explica que o apoio dos familiares é importante durante o processo de enfrentamento da dependência, mas precisa ocorrer sem que o problema seja escondido ou sustentado pelos próprios parentes.
“O primeiro passo é não abandonar, mas também não encobrir o problema. A família precisa oferecer apoio, estabelecer limites claros e incentivar a busca por tratamento profissional. É importante compreender que amar alguém não significa sustentar o uso da droga. A família também precisa de orientação e apoio, porque a dependência química afeta todo o núcleo familiar.”
No caso de Amanda, familiares acompanhavam parte de sua rotina e buscavam ajudá-la nos períodos de maior dificuldade. Segundo Ingrid, Karim cuidava dos filhos da vítima e a acompanhava em consultas médicas e atividades religiosas.
“Qual foi o verdadeiro motivo para tanta brutalidade?”
Ingrid afirma não acreditar que Amanda tenha iniciado uma agressão contra o homem preso pelo crime, como ele declarou à Polícia Civil. Segundo a versão apresentada pelo suspeito, Amanda teria iniciado uma agressão dentro da casa dele e, durante uma reação defensiva, caiu, bateu a cabeça e perdeu a consciência.
“Não acredito que ela tenha sido agressiva com ele. A não ser que ela teria se defendido. Não sei o que ele fez, não entendo tanta maldade, não sei se ele prometeu algo para ela. Mas, ele deveria dizer a verdade. Se já está preso, diga a verdade! Qual foi o verdadeiro motivo para tanta brutalidade?”, questionou.
A irmã também contesta a possibilidade de Amanda ter morrido após uma queda.
“Não acredito nessa versão de que ela teria batido a cabeça e morrido. Nem que ela avançou nele. Já disseram que havia marcas de sangue na cama e que o corpo dela estava com várias perfurações de faca no peito”, afirmou.
Para Ingrid, o esclarecimento do crime é uma forma de fazer justiça à irmã. “Infelizmente a Justiça em nosso país é de desacreditar, mas eu creio na justiça de Deus e essa não tem como ele fugir”, declarou.

(Ingrid abraça a irmã Amanda da Silva. Foto: arquivo pessoal)
Desaparecimento e descoberta do corpo
Amanda desapareceu no dia 19 de julho, depois de deixar a casa de uma prima no Solo Sagrado. Ela disse que voltaria em pouco tempo, mas não retornou.
Oito dias depois, em 27 de julho, partes de um corpo humano foram encontradas dentro de sacos plásticos descartados em lixeiras na região do Parque Estoril. Outros segmentos foram localizados posteriormente, incluindo mãos e antebraços encontrados no piscinão do bairro.
A família passou a suspeitar que os restos mortais poderiam pertencer a Amanda, mas manteve a esperança até a confirmação oficial.
A identificação foi realizada por meio do confronto das impressões digitais pelo Instituto de Identificação Ricardo Gumbleton Daunt (IIRGD), em São Paulo. As impressões encontradas nos antebraços e nas mãos permitiram confirmar a identidade da vítima.
Segundo o delegado André Amorim, responsável pela investigação da 3ª Delegacia de Homicídios da Deic, a possibilidade de que os restos fossem de Amanda já era considerada pelos investigadores antes da confirmação papiloscópica. A equipe cruzou registros de pessoas desaparecidas e casos de perda de contato entre familiares até chegar aos parentes da vítima.
Suspeito confessou o homicídio
A versão apresentada pelo suspeito, entretanto, é contestada pela família. Segundo Marciel, ele teria conhecido Amanda em uma praça e ela posteriormente ido até sua residência. No imóvel, conforme o depoimento dele, a mulher teria iniciado uma agressão.
Ele afirmou que a empurrou para se defender e que Amanda caiu, bateu a cabeça e perdeu a consciência. Depois disso, segundo a versão apresentada à polícia, decidiu esconder o corpo.
A investigação aponta que o corpo foi desmembrado dentro da cozinha da residência e colocado em sacos plásticos. Marciel teria realizado diferentes viagens para transportar e descartar os restos em pontos distintos do Parque Estoril, entre lixeiras e bueiros.
O suspeito nega ter mantido relação sexual com Amanda. Os exames periciais ainda estão sendo analisados para esclarecer as circunstâncias da morte.
Após descartar partes do corpo, Marciel foi a um serv-festas, onde tomou uma cerveja e permaneceu socializando com outras pessoas.

(Reprodução/ circuito de segurança)
Polícia encontrou vestígios de sangue na casa
Durante as diligências, os policiais localizaram na residência do suspeito uma manta com vestígios de sangue, perfurações compatíveis com golpes de faca e produtos de limpeza que podem ter sido usados na tentativa de eliminar vestígios.
A perícia também identificou grande quantidade de sangue oculto no imóvel. Conforme o delegado responsável pelo caso, há indícios de que o ambiente tenha sido lavado e que as paredes da cozinha tenham sido pintadas depois do crime.
A análise inicial da Polícia Técnico-Científica indica que Amanda pode ter sido morta sobre uma cama e posteriormente desmembrada. A faca que teria sido utilizada foi localizada e apreendida. Os exames necroscópicos apontaram diversas perfurações no tórax da vítima antes do desmembramento.
Histórico de violência doméstica
Marciel já havia sido investigado por violência doméstica. Em março deste ano, uma ex-companheira registrou boletim de ocorrência relatando que teria sido agredida durante uma discussão, com mordidas, socos e chutes.
O casal manteve um relacionamento de aproximadamente três anos e tem uma filha. Após o registro, a mulher conseguiu uma medida protetiva contra o ex-companheiro.
Entre as determinações judiciais estava a participação do investigado em acompanhamento psicossocial. Em abril, o Ministério Público denunciou Marciel por descumprimento da medida, apontando que ele não teria comparecido ao acompanhamento e também deixado de atender a uma intimação para justificar a ausência.
Naquele momento, entretanto, ele respondia ao processo em liberdade.
A prisão temporária de Marciel ocorreu na noite de 31 de julho, depois que câmeras de segurança registraram o suspeito carregando sacos plásticos e levando o material até lixeiras próximas a uma marmitaria no Parque Estoril.
Agora, com a confirmação da identidade de Amanda, a Polícia Civil continua trabalhando para reconstruir os últimos momentos da vítima e confrontar o relato apresentado pelo suspeito com as provas reunidas durante a investigação.
O caso é tratado como homicídio e ocultação de cadáver. A tipificação definitiva ainda dependerá dos resultados dos exames periciais e das demais provas produzidas durante a investigação.
Família prepara sepultamento
O corpo de Amanda deve ser liberado na próxima semana. O sepultamento está previsto para ocorrer em Barretos, onde parte da família mora.
Para custear o funeral, Karim Souza da Silva, que cuidava dos filhos de Amanda, organizou uma campanha para arrecadar recursos. A família pede ajuda de quem puder contribuir com qualquer valor.
A chave Pix divulgada para a campanha é 303.179.778-73 (CPF).
Esta reportagem é exclusiva do jornal Gazeta de Rio Preto e de autoria da jornalista Karol Granchi. É proibida a reprodução, cópia, publicação, distribuição ou utilização total ou parcial deste conteúdo, por qualquer meio, sem autorização prévia e expressa da autora e do veículo. A reprodução não autorizada constitui violação aos direitos autorais, nos termos da Lei Federal nº 9.610/1998.
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