Cidades
Motorista de aplicativo de Rio Preto viaja sozinho até Ushuaia
Rafael Arai percorreu milhares de quilômetros pela América do Sul dormindo dentro do carro e transformou o próprio veículo em motorhome improvisado
O que começou como mais um dia comum dirigindo pelas ruas de Rio Preto terminou em uma jornada de quase 20 dias até o extremo sul do continente. Aos 44 anos, o motorista de aplicativo Rafael Arai — ou simplesmente Rafa — decidiu trocar as paisagens vistas pela tela do celular e da televisão pela experiência real da estrada. O destino escolhido não foi qualquer um: Ushuaia, na Argentina, conhecida mundialmente como “o Fim do Mundo”.
A aventura começou no dia 28 de janeiro de 2026, às 10h da manhã. Sozinho, dentro de um Renault/Kwid preto apelidado carinhosamente de “Carbono”, Rafa partiu sem grandes luxos, sem roteiro fixo e com um sonho enorme na bagagem. A chegada aconteceu no dia 17 de fevereiro, às 14h, após quase 20 dias cruzando estradas, cidades desconhecidas e desafios inesperados.
“Eu comecei a gostar de viagens acompanhando vários canais no YouTube. Até que um dia eu cansei de ver as paisagens bonitas pela TV e decidi ver com os meus próprios olhos”, contou.
O detalhe que mais chama atenção é que o “Carbono” não era um carro preparado para expedições. Era o mesmo veículo usado diariamente no transporte por aplicativo em Rio Preto. Mesmo assim, Rafa adaptou o pequeno automóvel ao estilo motorhome improvisado e encarou a primeira experiência internacional da vida.
“A Argentina foi o primeiro país que visitei fora do Brasil na América do Sul”, disse.
Dormindo no carro e vivendo como um nômade
Durante a viagem, Rafa transformou a rotina em sobrevivência e descoberta. Dormia dentro do carro, procurava lugares seguros para estacionar e improvisava o dia seguinte conforme o caminho.
“Em cada cidade que eu chegava era um desafio, porque eu tinha que procurar um lugar para passar a noite com segurança, fazer as necessidades básicas, tomar banho. Mas a parte boa era explorar o desconhecido.”
O motorista conta que uma das experiências mais marcantes era justamente viver o cotidiano simples das cidades por onde passava.
“Eu adorava chegar numa cidade e, depois que estacionava o Carbono, saía a pé procurando um mercadinho local para ver como era e tentar viver a experiência de um nativo daquele lugar.”
Ao longo do percurso, foram consumidos cerca de 1.140 litros de combustível. O gasto total da viagem ficou em aproximadamente R$ 10 mil, sendo o combustível a principal despesa. Como dormia no carro, praticamente não teve gastos com hospedagem (exceto por uma situação inesperada na fronteira).
“Para entrar novamente na Argentina, vindo do Chile, o agente da imigração disse que eu só poderia entrar se tivesse um endereço. Foi aí que tive a ideia de fechar um quarto num Airbnb. Só assim me deixaram passar.”
“Nossa! Existe mesmo!”
Nem tudo foi simples. Rafa admite que pensou em desistir logo no começo, ainda em Foz do Iguaçu.
“Ali ainda dava tempo de voltar”, brincou. “Mas depois que entrei na Argentina abandonei essa ideia e comecei a aproveitar os momentos.”
O ponto mais emocionante aconteceu justamente na chegada a Ushuaia.
“Quando vi o portal de Ushuaia se aproximando, pensei: ‘Nossa! Existe mesmo! E cheguei até aqui!’”. Assim que estacionou o carro, Rafa correu para registrar o momento.
“A primeira coisa que fiz foi ir até uma das torres tirar fotos e gravar mensagens.”
Apesar da fama turística da cidade argentina, ele preferiu viver Ushuaia de maneira simples e contemplativa. Caminhou pela orla, conheceu o centrinho e tirou fotos em pontos tradicionais, como o letreiro da cidade e o famoso navio Saint Christopher, encalhado e transformado em atração turística.
“O centro é muito charmoso”, resumiu.
A trilha que mudou tudo
Mesmo sem planejar aventuras radicais, Rafa acabou vivendo uma das experiências mais intensas da viagem em El Chaltén, durante a subida ao Monte Fitz Roy.
“O passeio que mais me marcou foi a subida ao Fitz Roy. Eu não tinha planejado subir uma montanha e foi muito desafiador. Me perdi no meio da trilha, mas consegui chegar. A paisagem no final compensou todo o esforço.”
Na gastronomia, ele se encantou pelos sabores argentinos.
“Provei o autêntico choripán argentino, as empanadas e o doce de leite.” Outro ponto que marcou o viajante foi a receptividade dos moradores locais.
“Os argentinos, na maioria, foram muito simpáticos e educados. Tiveram muita paciência para me fazer entender, porque meu espanhol é limitadíssimo.”
Do aplicativo para a estrada
As histórias da viagem não ficaram apenas na memória. Rafa registrou tudo em vídeo e compartilha a rotina nas redes sociais e no YouTube, por meio do perfil @namalavida.
“Pretendo continuar viajando e mostrar os lugares sob a minha ótica, compartilhando os momentos com o público.”
O próximo sonho já existe, e é ainda maior.
“Quero chegar ao Alasca de motorhome. Mas esse é um projeto para daqui oito ou dez anos. Por enquanto, quero conhecer todas as capitais do Brasil.”
Para quem sonha em viver algo parecido, Rafa deixa um conselho simples:
“Escolha a forma que você quer viajar e planeje. Vi gente fazendo esse percurso de motorhome, carro comum, moto e até bicicleta.”
Mas ele também faz questão de lembrar que a verdadeira experiência vai muito além das redes sociais.
“Acredito que quem quiser viajar assim precisa abrir mão de luxo e de um pouco de privacidade. O resto é aproveitar o momento. A experiência que vivi não se traduz completamente em um vídeo do YouTube ou numa foto do Instagram. Eles são apenas uma fração do meu dia. No final, os likes passam, mas as histórias ficam.”
Ao encerrar a entrevista, o aventureiro fez questão de deixar um recado especial para Rio Preto, cidade que escolheu como lar.
“Apesar de não ser rio-pretense legítimo, a cidade me acolheu e eu a escolhi de coração. Por isso, levei o nome de Rio Preto até o Fim do Mundo.”
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