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Novos e melhores marcadores de risco cardiovascular

Artigo escrito pelo Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel

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O acúmulo de placas de gordura nas veias e artérias do corpo pode ser a causa de um infarto do miocárdio, derrame cerebral e tromboses. A formação dessas placas está intrinsecamente associada aos hábitos alimentares, à hipertensão arterial, ao diabetes e à elevação das taxas de colesterol no sangue. As dislipidemias, em geral, representam a elevação das taxas de gordura no sangue.

Embora pareçam inofensivos, os hábitos alimentares na infância são determinantes para o entupimento dos vasos sanguíneos na fase adulta. As taxas globais de obesidade em crianças têm aumentado nas últimas décadas, graças ao uso excessivo de telas e ao consumo exagerado de ultraprocessados.

Como resultado disso, os vasos sanguíneos inflamam desde a fase precoce da vida, e esse processo vai se acentuando gradativamente ao longo do tempo. Naquelas pessoas com propensão hereditária para o acúmulo de placas de gordura, a velocidade desse processo é inquestionavelmente maior. Não é por acaso que temos visto pessoas jovens, abaixo de 50 anos, morrendo por infarto fulminante.

Essa inflamação nos vasos sanguíneos pode ser avaliada por meio de substâncias que circulam no sangue. Em altas concentrações, essas substâncias são marcadores de algo que não está indo bem e, por esse motivo, auxiliam no diagnóstico precoce, na prevenção e no acompanhamento do tratamento das doenças cardiovasculares.

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Alguns marcadores inflamatórios já são mais conhecidos, como PCR (proteína C reativa) e o LDL colesterol (gordura de baixa densidade). Existem também marcadores mais específicos, com boa aplicação clínica, sendo usados para dar maior precisão ao diagnóstico de inflamação vascular, como lipoproteína(a), homocisteína, interleucinas (IL), lipo-oxigenases e fosfolipase A2.

A elevação da PCR em pacientes com fatores de risco cardiovascular pode ser um importante sinal de alerta. Mesmo sendo pouco específica, muitos estudos valorizam seu papel na prática clínica.

O LDL colesterol é uma junção de gordura com proteína, e sua ação é estimular a produção de moléculas inflamatórias que, por sua vez, permitem que esse tipo de colesterol entre na parede dos vasos sanguíneos, causando estreitamento e obstrução dos mesmos. A fosfolipase A2 facilita a quebra da estrutura proteica dos vasos sanguíneos, atraindo as partículas de gordura presentes no sangue. As interleucinas, especialmente IL-1 e IL-6, estão presentes em altas concentrações naqueles pacientes que tiveram infarto do coração ou tromboses e também são identificadas em concentrações razoavelmente altas nas pessoas com risco cardiovascular elevado. As lipo-oxigenases são potentes ativadoras de moléculas inflamatórias e facilitam o acúmulo de coágulos dentro dos vasos sanguíneos.

Um importante estudo publicado este ano no renomado Jornal da Associação Americana de Cardiologia, com a participação de quase 7 mil indivíduos, mostrou uma forte associação entre o aumento dos níveis sanguíneos da homocisteína e a ocorrência de infarto do coração, derrame cerebral e insuficiência cardíaca. Também foi mostrado que, nos indivíduos diabéticos, o prognóstico dos eventos cardiovasculares citados é sensivelmente pior.

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As últimas diretrizes brasileiras sobre dislipidemias deram atenção especial ao papel inflamatório da lipoproteína(a). Esse marcador pode ser mais determinante para o risco cardiovascular do que o próprio colesterol LDL. As taxas elevadas de lipoproteína(a) indicam inflamação acentuada dos vasos sanguíneos e maior tendência para formação de placas de gordura e trombos. Além disso, muitos estudos têm mostrado que, naquelas famílias com propensão genética para infarto do coração, os níveis de lipoproteína(a) são muito mais determinantes do que os níveis do colesterol LDL. A questão que tira o sono dos cardiologistas é como tratar ou mesmo prevenir doenças cardiovasculares, tendo como luz no horizonte os níveis sanguíneos de todos esses marcadores de risco. Algumas medidas são mandatórias e indiscutíveis, como controle alimentar e gerenciamento do estilo de vida. Existem medicamentos, como as estatinas, frequentemente utilizados na prática clínica, que também ajudam no controle das taxas de gordura no sangue.

No entanto, a questão crucial é o controle e tratamento da inflamação dos vasos sanguíneos. Os novos marcadores de risco cardiovascular são unânimes em alertar sobre essa inflamação vascular, e o desafio que fica para os próximos meses e anos é estabelecer protocolos individualizados com novos medicamentos, preferencialmente mais específicos e mais eficazes.

Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel. Cardiologista com especialização em Cirurgia Cardiovascular, orientador de Nutrologia e Longevidade e coordenador da Faculdade de Medicina da Unilago.

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