Saúde
O que precisamos saber sobre miocardite e vacina para Covid-19
Artigo escrito pelo Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel
Muito tem sido discutido sobre o risco de miocardite após a vacinação contra a Covid-19. Mas, afinal, o que seria miocardite e quais fatos sobre esta condição clínica efetivamente já estão estabelecidos?
Primeiramente, precisamos recordar que o músculo do nosso coração é conhecido como miocárdio e dependemos totalmente da viabilidade dele para sobreviver.
Algumas doenças podem acometer gravemente o miocárdio, sendo que o infarto do coração é a mais temida de todas. Quando o fluxo sanguíneo, responsável pela nutrição do miocárdio, fica reduzido, existe grande possibilidade de alguns segmentos do miocárdio “morrerem”, caracterizando o que conhecemos como infarto.
Quando pensamos nas doenças causadas por vírus, as chamadas viroses, podemos pensar numa importante doença inflamatória, conhecida como miocardite, a qual, em casos mais extremos, poderá cursar com falência do coração.
A miocardite, portanto, consiste em um processo inflamatório do miocárdio, geralmente associado a um vírus. Em tempos de Covid-19, seria razoável considerar a possibilidade do coronavírus causar uma miocardite, tal como uma vacina para Covid-19 poderia causar esta miocardite, como se fosse uma reação pós-vacinal.
Diante desta possibilidade, especialmente no que se refere ao papel da vacina em eventualmente aumentar o risco de uma miocardite, existem alguns fatos interessantes e que já estão estabelecidos.
Fato 1
A grande maioria dos casos de miocardite pós-vacinal tem sido identificada em indivíduos jovens do gênero masculino. A faixa etária de maior ocorrência tem sido de 16-30 anos.
Fato 2
A miocardite pós-vacinal tem ocorrido, após a segunda dose, no caso de vacinas feitas com o RNA do vírus (vacina com informação genética do vírus), como no caso da vacina da Pfizer.
Fato 3
Felizmente os sinais/sintomas de miocardite pós-vacinal costumam desaparecer dentro de seis dias, sem deixar sequelas no músculo cardíaco. Estes sinais/sintomas incluem alterações em exames bioquímicos e algumas manifestações clínicas, como febre e dor torácica.
Fato 4
A ocorrência de miocardite nos indivíduos jovens do gênero masculino não precisa estar necessariamente associada a um histórico de doenças prévias e comorbidades. Em outras palavras, uma pessoa jovem e previamente saudável pode apresentar este quadro de miocardite, como uma eventual reação pós-vacinal.
Fato 5
Quando há necessidade de hospitalização para tratamento da miocardite, o tempo médio de permanência no hospital tem sido de quatro dias.
A miocardite não deveria ser encarada como algo impeditivo para aplicação da vacina. As complicações da Covid-19, especialmente nas pessoas com vacinação incompleta e naquelas que optaram por não se vacinar, têm sido muito intensas, com gravidade considerável e requerendo hospitalização por tempo indeterminado.
Sempre é essencial salientar que precisamos conhecer o máximo possível acerca das particularidades do coronavírus e das vacinas disponíveis para o controle da disseminação desta pandemia. Mas, ao contrário do que se possa especular, nada pode ser de maior magnitude do que a vacinação como instrumento eficaz na prevenção de casos graves e redução da letalidade.
Não significa, de forma alguma, que devemos subestimar a importância de complicações pós-vacinais, como é o caso da miocardite. Apenas devemos ponderar numa espécie de balança mental, o que seria pior, o que acarretaria maior risco, o que pode salvar vidas, o que poderia mudar paradigmas e prognósticos.
Quando tomamos um medicamento para um determinado sintoma, estamos cientes de que podem aparecer alguns efeitos colaterais. Este risco é necessário nesta balança mental, nesta tomada de decisões em prol de uma saúde melhor e mais plena.
A vacina para Covid-19 é realmente necessária para controlarmos a disseminação de casos graves e para transformar a pandemia num evento mais brando e mais sazonal. A miocardite pode ser controlada, mas as complicações de uma Covid-19 muito agressiva ainda superam o poderio dos recursos médicos.
Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel. Cardiologista com especialização em Cirurgia Cardiovascular, orientador de Nutrologia e Longevidade e coordenador da Faculdade de Medicina da Unilago.
